O desafio de ser mulher

O desafio de ser mulher

Veja como mulheres de diversas gerações encararam - e encaram, diariamente - a luta pela igualdade de gênero. Muitas delas sem nem perceber a revolução de que fazem parte

Por Ailim Cabral Por Juliana Andrade Especial para o Correio Por Renata Rusky
postado em 10/03/2019 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Elas têm história diferentes, são de gerações diversas e apresentam pontos de vista variados, mas concordam com uma coisa: apesar das conquistas e mudanças dos últimos anos, a vida não é tão fácil assim para o sexo feminino. E não é para menos. Para a professora Eva Blay, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ainda vivemos, no Brasil, em uma sociedade machista e patriarcal.

Eva explica que as mulheres, historicamente, ocuparam uma posição subordinada, que variou ao longo do tempo ; e ainda varia ; a depender da raça, da etnia e da classe social ;Não podemos dizer que é igual para todas hoje, então não posso dizer que antigamente era. Nunca foi;, ressalta.

Apesar das variações, a socióloga explicita que uma das constantes, independentemente de classe social, é a violência do homem contra a mulher, seja física ou sexual, seja moral ou psicológica ; fator que interfere intimamente na vivência geral dela e na posição que ocupa na sociedade e no mundo.

Neste mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Revista ouviu mulheres de diversas gerações para saber o que, para elas, representa fazer parte desse gênero historicamente tão discriminado.

O 8 de março

Criada pela Organização das Nações Unidas em 1975, a data teve origem no século 20. Acredita-se que o movimento por melhores condições de trabalho das mulheres que atuavam em fábricas nos Estados Unidos e na Europa foi um dos motivadores, além das reivindicações delas pelo direito ao voto. Em muitas culturas, o Dia Internacional da Mulher assumiu um aspecto comercial e comemorativo, na qual se dão presentes e flores. Mas os movimentos feministas resgatam o aspecto da luta por conquista de direitos.

Além de comemorar o protagonismo histórico das mulheres nessa batalha, deve ser, segundo a historiadora Susane Rodrigues de Oliveira, uma data para mobilizar e conscientizar sobre a necessidade da igualdade de gênero. ;É importante realizar um exercício crítico das conquistas já realizadas e daquelas a serem consolidadas, bem como dos retrocessos que vêm ocorrendo nos últimos anos. Isso exige a denúncia da misoginia e da violência sexista/racista ainda presentes;, completa.

Luta seguida por gerações

Mesmo com a incansável luta das mulheres por igualdade, alguns problemas persistem por gerações. Em um bate-papo da equipe da Revista com as aposentadas Liunicia Santos, 83 anos, Maria Dilma Santos, 60, e a assistente jurídica Fernanda Campos, 34 ; avó, mãe e filha, respectivamente ;, é possível notar algumas conquistas, porém fica claro que ainda há muito o que alcançar.

Tímida, Liunicia lembra de uma grande vitória na vida: os estudos. A aposentada começou a estudar pedagogia depois dos 30 anos, quando já estava casada. Não faltaram críticas pela iniciativa, tomada há mais de meio século. O marido até apoiou, mas não comprou a ideia de primeira. ;No começo, ele estranhou, porque mulher tinha que cuidar da casa e dos filhos;, recorda-se.

O estudo foi mesmo uma das grandes conquistas femininas. No Brasil, elas só tiveram acesso ao ensino superior em 1879. E, passados 140 anos, muitas ainda se deparam com discursos preconceituosos. ;A mulher pode até trabalhar e estudar, mas é obrigação dela tomar conta da casa e dos filhos. Aí eu pergunto: por que não é obrigação do marido também? Por que tem que ser a mulher?;, questiona Fernanda, neta de Liunicia.

As dificuldades se estendem até o mercado de trabalho. Para Fernanda, elas começam na escolha da profissão e seguem até a disputa de cargos. ;As pessoas não olham para nós com a capacidade real que temos. Tem gente que não quer dar cargo de direção para a mulher porque acha que os subordinados não vão respeitá-la;, declara.

Independência que assusta

Aos 60 anos e divorciada, Maria Dilma sente o peso de ser uma mulher mais velha e solteira. Se, quando jovem, era obrigada a conquistar a confiança dos pais para sair e se divertir, hoje, em pleno século 21, ainda precisa lidar com os olhares tortos da sociedade. ;Até minhas colegas da mesma idade me discriminam, acham que eu devo ficar em casa cuidando dos netos. Mas, com o tempo, eu aprendi que hoje eu saio se eu quiser, ninguém me obriga a não ir;, destaca. Maria Dilma afirma que muitos julgam até as roupas que usa e querem taxá-las pela faixa etária. Os shorts já foram excluídos do guarda-roupa, porém os biquínis estilo fio dental ainda não foram abandonados por Maria Dilma.

Susane Rodrigues de Oliveira, doutora em história e professora da Universidade de Brasília, ressalta que um dos grandes desafios para as mulheres acima dos 40 anos é o envelhecimento em uma sociedade que impõe um padrão físico jovem e magro, o que traz uma carga de sofrimento extra, com as diferenças e as transformações naturais do corpo. ;É muito cruel e afeta profundamente a saúde mental de muitas mulheres. Não por acaso, o Brasil é campeão em cirurgia estética.;

Maria Dilma e dona Liunicia se lembram bem de como era difícil ter um mínimo de liberdade na época de solteira. A avó de Fernanda conta que sair de casa sem os pais só se fosse com alguém da família, como tia ou prima casada. Com a assistente jurídica não foi muito diferente. Segundo ela, o irmão, quatro anos mais novo, saía com os amigos quando bem entendia, enquanto ela, aos 18, mal podia pisar o pé fora de casa.

Apesar do tratamento desigual, Fernanda confessa que não pensa em agir de forma muito diferente com a filha, que hoje tem 5 anos. ;Se eu chegar para a minha mãe e falar que vou para uma festa, uma das preocupações é de alguém me atacar, de algum homem se aproveitar porque eu bebi ou colocar alguma coisa na minha bebida. Não que isso não poderia acontecer na geração da minha avó, mas acho que a preocupação da minha mãe comigo é maior;, lamenta


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