Exemplo que vem de casa

Exemplo que vem de casa

postado em 10/03/2019 00:00
 (foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A advogada Elisa Lorena Barros Santos, 30, carrega pela mãe, pela avó e por todas as mulheres da família um orgulho admirável. ;Eu venho de uma linhagem feminina forte, que sempre esteve muito à frente do tempo;, destaca. A avó era mãe de três, separou-se e deixou a cidade numa época em que isso era inaceitável. Foi o primeiro escândalo na família. O segundo foi quando se casou com um homem mais novo.

A mãe de Elisa estudou engenharia também em um período em que poucas mulheres o faziam. Os sonhos dela eram dirigir trator e ser cientista. Conseguiu realizar ambos. Por um bom tempo, a mãe trabalhava e o pai, não. Ficava em casa com as crianças, cozinhava. ;Tudo isso muda as expectativas e o referencial das mulheres, eleva o nível de exigência em relação ao que se quer de um marido;, opina Elisa.

Não é à toa que a advogada escolheu alguém que divide com ela todas a responsabilidade pelas duas filhas e pela casa. ;E, com isso, ele ganha a fatia boa da paternidade também, que é o vínculo afetivo. Antes, era o mundo das mulheres e das crianças e o mundo dos homens;, considera. Ela lamenta, no entanto, saber que é um ponto fora da curva, uma privilegiada.

Elisa sabe que a situação dela com a família não igual à da maioria das casas, onde o dever de cuidar das crianças, da limpeza, da comida, ainda é exclusivamente da mulher. Esperançosa, acredita que as coisas estão mudando aos poucos. ;As mulheres já saíram de casa, já estão trabalhando, embora a gente saiba que não haja equiparação salarial ; eu sei que um homem que faz o mesmo que eu, com a mesma experiência, ganha mais. A questão agora é o homem ir pra casa e ocupar aquele espaço também.;

Como mãe só de meninas, ela procura ensinar, especialmente, a ideia do consentimento. ;Ninguém pode forçar abraço, forçar beijo, fazê-las abraçar ou beijar um adulto que elas não querem, que mal conhecem.; Como não tem contato apenas com as próprias filhas, em relação aos meninos, ela pensa diferente e alerta: ;Temos que trabalhar com eles a raiva, a agressividade, porque eles são ensinados assim;.

Divórcio
Instituído legalmente em 1977, o divórcio foi um divisor de águas entre as antigas e as novas gerações. E, apesar dos avanços, a imagem da mulher divorciada ou da mãe solteira ainda é negativa no Brasil nos dias de hoje. Para a historiadora Susane Rodrigues de Oliveira, o mercado de trabalho evidencia isso, uma vez que faltam leis que beneficiem a mulher que precisa conciliar a maternidade e o trabalho externo. Mesmo com um preconceito persistente, as conquistas do divórcio, da independência financeira e da maternidade solo, são, na opinião de Susane, fatores determinantes na autonomia e no empoderamento da mulher.

Linha do tempo

As conquistas femininas no Brasil
  • 1832 ; O livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, escrito por Nísia Floresta e considerada a obra fundadora do feminismo brasileiro, é publicado no Brasil.
  • 1879 ; Mulheres ganham acesso ao ensino superior no Brasil.
  • 1928 ; Alzira Soriano de Souza é eleita a primeira prefeita da história do Brasil, no município de Lajes, no Rio Grande do Norte - RN
  • 1932 ; O voto feminino é regulamentado no Brasil, mas apenas para as casadas com autorização e para as solteiras e viúvas com renda própria. Dois anos depois, acabaram as restrições.
  • 1962 ; Passou a valer o Estatuto da Mulher Casada, que garantia a elas o direito de trabalhar sem precisar de autorização, além do acesso às heranças e de ter guarda de filhos, caso fosse separada.
  • 1977 ; É criada no Brasil a lei que permite o divórcio.
  • 1982 ; O Brasil tem a primeira ministra: Esther de Figueiredo Ferraz ocupou o Ministério da Educação.
  • 1995 ; É criada a lei federal que sugeria que 20% dos candidatos dos partidos deveriam ser mulheres. Em 1997, a porcentagem subiu para 30%. Só em 2009, tornou-se obrigatória.
  • 2003 ; Criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres: espaço institucional dedicado à promoção da igualdade de gênero e articulação políticas para as mulheres no âmbito federal.
  • 2006 ; Lei Maria da Penha é sancionada para proteger as mulheres da violência.
  • 2009 ; Criação da Lei n; 12.015, em que o estupro passa a representar, no Código Penal brasileiro, crime contra a dignidade e a liberdade sexual, que consiste no ato de ;constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso;.
  • 2010 ; Eleita a primeira presidente mulher no Brasil: Dilma Rousseff
  • 2015 ; A Lei do Feminicídio tipifica o assassinato de mulher motivado pela condição de sexo, enquadrado como crime hediondo.

O que a vida ensinou

A cozinheira Maria do Carmo Silva Lima, 51, hesita em dar entrevista. ;Nem tenho estudo;, argumenta. A escola dela foi a da vida e, se tem uma coisa que aprendeu muito bem e que quis passar para as três filhas, é que ;não dá pra depender de homem nenhum;. Mãe solo, ela sabe o que diz. O pai da primeira filha morreu quando a menina tinha 3 anos. No caso das outras duas, apenas uma mantém contato com o pai. Foi ela quem ficou a cargo da criação. ;A gente tem que entender que não pode esperar nada deles;, reclama.

Diferentemente da filha Giselle Oliveira, 36, desempregada, Maria não se considera feminista. ;Acho que muitas feministas exageram;, opina. Giselle e o filho Augusto, de 14 anos, explicam, então, que algumas das coisas que dona Maria critica são, na verdade feminismo, que ela defende na prática, sem nem perceber.

Giselle se impressiona com o filho por saber e discutir sobre esses temas. ;Eu com 15 anos, não tinha esse tanto de informação. Não se falava em feminismo como hoje. Eu só comecei a aprender sobre essas coisas recentemente;, conta. Ela garante que procura criá-lo sem estereótipos ; o garoto, por exemplo, teve o apoio da mãe para pintar o cabelo de lilás.

Já o pai de Maria era policial e tinha ideias mais tradicionais sobre o que era coisa de menino e de menina. Mesmo assim, ela relembra que todos conseguiam brincar juntos. Já ela, não acredita que haja coisas de um sexo e coisas de outro e exemplifica com a própria filha: ;A Giselle desde criança é apaixonada por futebol. É da personalidade dela;. Mais uma atitude feminista para a época.

O trabalho

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação