Polos industriais em xeque

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Anúncio de fechamento da fábrica da Ford no ABC paulista e ameaça do presidente da GM expõem a necessidade de reinvenção dos tradicionais centros produtivos do Brasil

» Nelson Cilo
postado em 13/03/2019 00:00
 (foto: Antonio Pacheco/Agência RBS - 14/7/03)
(foto: Antonio Pacheco/Agência RBS - 14/7/03)



O ano mal começou para valer e dois grandes acontecimentos espalharam pânico no principal centro industrial do país, o ABC paulista. O primeiro, logo nos primeiros dias de 2019, surgiu com a ameaça escancarada do presidente da GM no país, Carlos Zarlenga. Sem meias palavras, o executivo distribuiu um comunicado dizendo que este será um ano decisivo para a fábrica de São Caetano do Sul (SP), que está no vermelho há anos, apesar da liderança da marca no mercado. O segundo, e mais preocupante deles, foi o anúncio de fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo (SP), prestes a completar um século de operações. Sob justificativa de ;adequação;, a unidade será fechada até setembro deste ano, marcando a saída definitiva da empresa do segmento de caminhões na América do Sul. ;O que GM e Ford têm em comum? Ambas simbolizam a necessidade de reinvenção de seu modelo de funcionamento;, reconheceu o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana.

Curiosamente, o sindicalismo é um dos fatores apontados como responsáveis pela decadência da região ; questão que também tem afugentado investimentos em outras regiões altamente industrializadas no país, como Betim (MG) e Camaçari (BA). ;O sindicalismo radical e irresponsável ditou o ritmo da indústria durante décadas em regiões importantes;, afirma o economista Jorge Afonso Bellido, especialista em economias regionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. ;A velha ideologia do confronto de classes, que colocou patrões e empregados frente a frente, atravancou o desenvolvimento de várias regiões brasileiras e hoje mostra sua face mais cruel.;

O fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo vai diminuir em R$ 18,5 milhões a arrecadação municipal por ano, de acordo com estimativa da prefeitura. Os cofres públicos da cidade vão perder R$ 14,5 milhões em repasse de ICMS ; referente a 1,7% do total arrecadado com o imposto estadual ; e R$ 4 milhões de ISS. Mas o problema maior será na retração da mão de obra. Pelos cálculos do Sindicato dos Metalúrgicos, cada vaga fechada na Ford vai extinguir outras nove em empresas fornecedoras. Na ponta do lápis, 30 mil pessoas devem ficar sem trabalho. ;O efeito será devastador;, acrescenta Santana, do sindicato.

Os estragos serão percebidos em toda a economia da região. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) projeta uma perda de R$ 4,8 bilhões para a economia do ABC ao ano com o fechamento da fábrica, sendo R$ 3 bilhões do setor de caminhões e R$ 1,8 bilhão de automóvel. O número ainda está sujeito a revisões, mas são quase R$ 5 bilhões que vão deixar de serem movimentados na cidade para pagamento de salários, contratação de serviços e conversão em arrecadação para o município, segundo Luís Paulo Bresciani, técnico do Dieese.

Os estragos provocados pela desindustrialização cresceram como nunca nas duas últimas décadas. A guerra fiscal levou muitas empresas atrás de incentivos no interior paulista ou mesmo em distantes lugares do país, especialmente do Norte e Nordeste. O ABC paulista também assumiu a conta negativa. De janeiro de 2002 a dezembro de 2018, os avanços registraram 88,82%, aquém da inflação de 212,98% no período. O PIB industrial da região perdeu um terço da força que mantinha na Região Metropolitana de São Paulo. Saiu de R$ 12 bilhões, em 2002, para R$ 24,1 bilhões, no ano passado. Mas, na correção pelo IPCA, o PIB de 2002 atingiu R$ 29,2 bilhões. Portanto, o prejuízo bateu e m R$ 5,1 bilhões na diferença entre o índice real e o deflacionado.

Conjuntura positiva

Apesar da nuvem de incertezas que paira sobre o ABC paulista, os indicadores econômicos mais recentes da região são positivos. De acordo com o Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, com sede em São Bernardo do Campo, no acumulado entre janeiro e novembro de 2018 (último dado disponível), o ABC registrou um superavit de US$ 417,4 milhões em sua balança comercial. As exportações, que somaram US$ 5,02 bilhões, subiram 3%. As importações cresceram 23%, para US$ 4,6 bilhões. Houve um salto de 11,9% na corrente de comércio exterior, o que expõe a sintonia entre a economia regionalizada e a internacional. ;Poucas regiões de industrialização mais recente, como alguns locais no interior de São Paulo, têm conseguido se inserir em um padrão mais flexível de produção;, afirma o professor Sandro Renato Maskio, coordenador de pesquisa do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo (leia mais na entrevista abaixo).

Em 2018, a massa de renda dos trabalhadores formais do ABC subiu 2,3% comparativamente a 2017 ; ou R$ 2,3 bilhões. A renda média era de R$ 3.164,79 a cada trabalhador formal, o equivalente a 6,13% acima de igual mês de 2017. Nesse mesmo período, a economia brasileira subiu 1,3%, bem inferior à expectativa inicial de 3,5%, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

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