Buscaremos meu gabinete em Miraflores

Buscaremos meu gabinete em Miraflores

Em comício, o presidente autodeclarado Juan Guaidó avisa que "fim da usurpação" está muito próximo. Procurador-geral acusa o líder opositor de sabotagem do sistema elétrico e abre investigação. Blecaute dura mais de 120 horas

Rodrigo Craveiro
postado em 13/03/2019 00:00
 (foto: Ronaldo Schemidt/AFP)
(foto: Ronaldo Schemidt/AFP)


Horas depois de o procurador-geral Tarek William Saab solicitar a abertura de uma investigação sobre o suposto envolvimento de Juan Guaidó na ;sabotagem; do sistema elétrico, o presidente autodeclarado da Venezuela desafiou o governo de Nicolás Maduro e discursou ante uma multidão em Altamira, bairro a leste de Caracas. ;O fim da usurpação está muito próximo. Em breve, precisaremos de uma nova oficina para trabalhar. Quando tivermos as Forças Armadas totalmente alinhadas, buscaremos meu gabinete em Miraflores;, afirmou, em alusão ao palácio, sede do Executivo.

Guaidó explicou que trabalha junto à sociedade civil e às Forças Armadas para acelerar a restauração da democracia no país. ;Com valor e com força, peço que confiem em vocês, que a Venezuela vai sair da escuridão, que o fim da usurpação está muito próximo. (;) Estamos construindo capacidades, temos falado com policiais e militares. Temos cortado o fornecimento (de combustível) a Cuba. Não utilizarão o nosso dinheiro para nos oprimir;, acrescentou. Ontem, milhares de pessoas atenderam ao chamado do líder opositor e saíram às ruas para protestar contra o blecaute, que durava mais de 120 horas.

Em declarações à impresa, Saab acusou Guaidó de ser ;um dos autores intelectuais dessa sabotagem elétrica e desse apelo praticamente a uma guerra civil em meio a esse apagão;. ;Anuncio que uma investigação está sendo aberta (;) contra o cidadão Juan Guaidó por seu suposto envolvimento na sabotagem do sistema elétrico venezuelano;, disse o procurador-geral. Ele atribuiu o blecaute a um fenômeno não casual e parte de uma ;escalada cada vez mais desesperada para derrubar um governo legitimamente constitiuído;.

Juan Palencia, deputado da Assembleia Nacional pelo partido Acción Democrática, lembrou ao Correio que Guaidó, o parlamento e o povo venezuelano repudiam as ameaças de Saab e advertiu que elas ;surtirão efeito contrário;. ;Isso dará mais motivação aos venezuelanos para que saiam às ruas em defesa da paz e do sistema democrático. O governo que se atreva a prender o presidente Guaidó, pois verá a reação de um povo nas ruas;, comentou. ;Nosso povo deseja a saída pacífica e aposta na paz. Mas se vê disposto a defender seu presidente, a democracia e a liberdade.;

Culpados
Vice-presidente da organização não governamental Foro Penal Venezolano, o advogado Gonzalo Himiob acredita que a única esperança da oposição é se manter mobilizada e buscar uma resposta daqueles que ainda apoiam Maduro. ;O problema é que isso se mostra difícil agora, quando tantas pessoas têm de buscar a sobrevivência, sem luz ou água;, sublinhou. Segundo ele, Saab busca culpados para transferir a responsabilidade de Miraflores a terceiros e, com isso, neutralizar a oposição. ;O blecaute é produto da falta de investimentos e de manutenção. A única culpada por tudo isso é a corrupção. Há anos advertia-se que algo assim poderia ocorrer, e o governo não prestou atenção.;

Desde a última quinta-feira, a maior parte dos venezuelanos enfrenta o caos, sem abastecimento de água e sem energia elétrica. ;Fui afetada pelo apagão durante quatro dias. A comida que eu estocava na geladeira se perdeu. Não há gás para cozinhar e tenho dois filhos pequenos. Foi um inferno. O governo não ajudou em nada. Eles se preocuparam apenas em dizer que foi culpa da oposição. Vivemos uma situação de desespero e de apatia;, desabafou à reportagem uma moradora de Maracay, 80km a sudoeste de Caracas. Na capital, centenas de pessoas correram com garrafas, baldes e bacias para um duto de esgoto que desagua no poluído Rio Guaire, no bairro carente de San Agustín. ;Queremos água! Queremos água para dar aos nossos filhos!”, gritavam cerca de 300 manifestantes à espera na Autopista Francisco Fajardo.



Eu acho...
;As acusações de Tarek William Saab são uma mentira a mais do governo para amedrontar os venezuelanos, que decidiram assumir o caminho do resgate da democracia. O procurador-geral da República é ilegítimo, pois sua nomeação ocorreu sob duvidosa procedência. Não se cumpriu a lei e violou-se a Constituição.;
Juan Palencia, deputado da Assembleia Nacional pelo partido Acción Democrática





Brasil e Paraguai reafirmam apoio
Os presidentes de Brasil e Paraguai, Jair Bolsonaro e Mario Abdo Benítez, reafirmaram o ;firme apoio; ao líder opositor Juan Guaidó no ;processo de transição para a democracia; na Venezuela. ;Não é o momento de ser indiferente; com a Venezuela, declarou Abdo em uma breve entrevista coletiva, durante visita a Brasília. ;Estamos unidos na defesa da democracia. Hoje é a Venezuela, mas amanhã poderá ser qualquer outro país. Que Deus salve a Venezuela.; Em uma declaração conjunta, Brasil e Paraguai reiteraram ;seu firme compromisso de seguir apoiando o povo venezuelano e o governo do presidente Juan Guaidó no processo de transição rumo ao restabelecimento da democracia na Venezuela;. Bolsonaro e Abdo receberam Guaidó há duas semanas.






Os rumos da crise
A disputa pelo poder na Venezuela é travada entre o apoio militar ao presidente Nicolás Maduro e o amplo respaldo internacional ao opositor Juan Guaidó. Seu desfecho é incerto, mas, em cada cenário, as Forças Armadas pesam na balança. Veja os rumos que, segundo analistas, a crise poderia tomar:

Pressão até o colapso
Com forte apoio popular, Guaidó voltou para casa, depois de fracassar em sua tentativa de fazer entrar no país doações de alimentos e remédios procedentes dos Estados Unidos, por meio da fronteira com a Colômbia. Em seu retorno, prometeu intensificar os protestos e o cerco diplomático ao líder socialista, com greves no setor público e pedidos à União Europeia para que endureça as sanções ao governo. A pressão pode levar comandantes militares a abraçar Guaidó e a ;colapsar o regime, abrindo o caminho para uma transição para eleições;. ;Até agora, há poucos sinais de que isso irá ocorrer, mas é possível;, disse à agência France-Presse Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, instituto sediado em Washington. As sanções de Donald Trump para sufocar Maduro, incluindo um embargo ao petróleo, podem agravar condições de vida da população ;antes de causar o colapso do governo e, eventualmente, contaminar a imagem; de Guaidó, adverte o analista venezuelano e diretor do instituto de pesquisas Da

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