Em crise, UnB volta às aulas

Em crise, UnB volta às aulas

Os cerca de 47 mil alunos da Universidade de Brasília começam o primeiro semestre letivo do ano hoje. Orçamento enxuto restringe ação da Reitoria. A instituição deve registrar deficit de até R$ 25 milhões

» AUGUSTO FERNANDES » CAROLINE CINTRA ESPECIAIS PARA O CORREIO » PAULA BEATRIZ*
postado em 13/03/2019 00:00
 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)



Começam hoje as aulas para os cerca de 47 mil alunos da Universidade de Brasília (UnB) e, assim como em anos anteriores, 2019 será marcado pelo desafio da instituição de manter as portas abertas com um orçamento enxugado. A estimativa de orçamento para o ano é de R$ 1,798 bilhão. A UnB ainda alega que os recursos disponibilizados pelo Ministério da Educação (MEC) não sofreram reajustes. A instituição estima que fechará o ano com deficit entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões.

;Com muito esforço, vamos funcionar adequadamente. Estamos pagando nossas despesas de forma integral e iniciaremos as aulas sem dívidas pretéritas; 2019 será um ano difícil, mas a universidade permanece vigilante com o controle de suas contas;, afirmou a decana de Planejamento, Orçamento e Avaliação Institucional, Denise Imbroisi.

No entanto, o ano para a universidade já começou com pendências. Dos R$ 154,6 milhões que deveriam ser repassados do governo federal ; R$ 146,4 milhões para a manutenção de serviços como limpeza, segurança, luz, água e refeições no Restaurante Universitário e R$ 8,2 milhões para investimentos ;, Denise disse que apenas 30% está à disposição da UnB.

;Esse contingenciamento nos preocupa. Ainda não recebemos autorização para fazer investimentos, como adquirir novos equipamentos. A universidade trabalha de forma limitada. Restringindo e adequando gastos para que as atividades acadêmicas fluam normalmente;, contou. ;A expectativa é de que liberem os recursos para que nós possamos usar 100%. Aguardamos ansiosamente a autorização;, completou Denise.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação do MEC, mas até o fechamento desta edição, não recebeu nenhum posicionamento da pasta sobre o assunto.

Professores

A UnB teme uma greve de professores da instituição caso deixe de pagar aos docentes a URP (Unidade de Referência de Preços) ; benefício que equivale a 26,05% do vencimento dos professores, concedido desde 1987 (leia Entenda o caso). ;Ainda não sabemos muito bem como a situação vai se desenrolar, mas a falta de profissionais pode ser um dos problemas mais importantes deste ano. Mesmo assim, temos tentado trabalhar com a perspectiva de perda de pessoal. A missão da universidade é uma missão de ensino. Temos feito todos os esforços para continuar junto aos alunos;, comentou o decano de Ensino de Graduação, Sérgio Freitas.

O assunto mobilizou a Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), que protocolou uma ação judicial pela manutenção do adicional. O sindicato considera a URP uma conquista histórica. ;Temos que atuar pela defesa dos nossos direitos. Uma redução do salário dos professores traria impactos para toda a universidade. Por mais que tenhamos um corpo docente qualificado e preocupado em preservar a reputação da UnB, o fim da URP seria uma catástrofe;, alertou o presidente da ADUnB, Luís Antônio Pasquetti.

Apesar de não falar em greve, Luís Antônio garante que a polêmica deve mexer no calendário da instituição de ensino. ;Nas próximas semanas, devem acontecer manifestações e mobilizações para que o benefício se mantenha. Atualmente, as condições de trabalho já são difíceis, e entendemos que elas podem piorar caso haja alguma alteração;, explicou.



Conforto aos alunos

Enquanto o imbróglio judicial não se resolve, a UnB espera uma boa acolhida aos alunos. Durante as férias, a instituição projetou mudanças para se tornar mais confortável aos universitários. ;Temos adotado alternativas para ficar mais próximos aos alunos. O nosso objetivo maior é formar profissionais qualificados, portanto, temos que entender as diferenças e respeitar as diversidades. Administrar as ideologias de vida de cada um dos alunos é fundamental;, garantiu o decano Sérgio Freitas.

Estudante do câmpus Darcy Ribeiro desde 2015, Hélio Barreto, 23 anos, fica na expectativa de que as mudanças realmente tenham efeito. ;A UnB exige uma dedicação quase exclusiva dos alunos. Muitos passam quase o dia inteiro aqui, como eu. Por isso, a universidade tem de ser acolhedora, e não um espaço hostil que não dá abertura às opiniões dos universitários. O senso de comunidade precisa ser cultivado com mais força;, opinou o estudante de teoria crítica e história da arte.

A atual gestão também afirmou que tem priorizado melhorias na segurança. Reforçou a vigilância, estabeleceu parcerias com a Polícia Militar e investiu na instalação de mais câmeras de monitoramento. Mariana Leite, 19, que cursa audiovisual desde o ano passado, espera que as medidas funcionem. ;A insegurança, de fato, é o que nos deixa mais preocupados. A partir do momento em que a universidade tenta proteger o seu aluno, o benefício é mútuo. Quando nos sentimos mais seguros, ficamos motivados a explorar melhor as nossas habilidades;, destacou.

A aula inaugural #InspiraUnB, tema do semestre, está marcada para as 10h de hoje. Voltada para os cursos diurnos, tratará sobre ciência e cidadania, com a convidada Natalia Pasternak, pesquisadora colaboradora na Universidade de São Paulo (USP) e uma das difusoras, no Brasil, da iniciativa Pint of Science, que busca levar a bares e restaurantes do país debates sobre ciência, em uma linguagem acessível.

No dia seguinte, às 19h30, a instituição promove a aula inaugural para os cursos noturnos, com o tema ;Humanismo contra a barbárie;. O palestrante será Milton Hatoum, escritor e ganhador do prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano pelo seu romance mais recente, A noite da espera. Uma novidade deste semestre é que a aula inaugural da pós-graduação entrou no projeto e será na próxima segunda-feira, às 14h, no auditório da ADUnB, ministrada pelo professor Stuart E. Bunn, diretor do Australian Rivers Institute (da Griffith University, da Austrália). O tema abordado será ;Protegendo e restaurando ecossistemas de água doce na Décadas Internacional para Ação, Água para o Desenvolvimento Sustentável, da ONU;

* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa



Entenda o caso

Aumento
de salários

A URP não foi criada como um adicional salarial. Ela surgiu como índice econômico, em 1987, para reajustar preços e salários ; o que, naquela época, fazia sentido, frente à alta infla

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