Mensagens despercebidas

Mensagens despercebidas

Emprego de técnicas subliminares e o uso concentrado de luzes nas produções de cinema fazem parte do dia a dia do consumidor de entretenimento, que, muitas vezes, nem atenta para efeitos do uso

Ricardo Daehn
postado em 13/03/2019 00:00



Num mundo a todo vapor, com dados e acontecimentos que, vira e mexe, nos escapam aos olhos, há uma brecha que mescla oportunismo e desaviso ; ela encerra um portal que leva muitos aos efeitos da comunicação subliminar. Mensagens, a princípio, despercebidas se incrustam no cérebro dos espectadores que, de forma inconsciente, as absorvem. ;Estas tecnologias subliminares são proibidas por lei na União Europeia e nos Estados Unidos; aqui, no Brasil, propus que fossem aplicados alguns artigos do Código de Defesa do Consumidor (artigo 36, que versa sobre o imediatismo da identificação de publicidade) e do Código de Ética da Publicidade (artigo 22, vinculado à padrões de decência) proibindo tecnologias subliminares;, conta uma das autoridades nacionais no tema, o professor e escritor Flávio Calazans, atuante, no Ministério Público, contra excessos da prática subliminar.

No campo do entretenimento, afora as obrigações, Calazans se diverte com elementos subliminares. ;Há inúmeros casos de forma frequente de emprego de tecnologia subliminar no cinema, televisão e internet. Por exemplo, no Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola, vi o Gary Oldman (protagonista), sem maquiagem em um frame, entre relâmpagos, e maquiado de lobisomem. Um ano depois, catei o frame no VHS, e as pessoas com doutorados reforçavam minhas alucinações, dizendo existir mesmo a imagem;, brinca.

Perito judicial em casos como o de anúncios televisivos abusivos de cigarro, entre outros desafios, Calazans é pesquisador e tem à mão dados interessantes como o dos processos relacionados à exposição de entretenimento subliminar, como num episódio de Pókemon (leia entrevista), que levou a Nintendo a pagar salário vitalício para cada criança que sofreu epilepsia quando da exposição à animação de 1997. No Brasil, o recente caso do thriller dramático Albatroz, estrelado por Alexandre Nero, levou a distribuidora Paris Filmes à atitude de precaução: além da recomendação para maiores de 14 anos, há o alerta de que os efeitos à elaborada (e perturbadora) fotografia do filme podem ser inadequados para pessoas com epilepsia.

;Efeitos desagradáveis;

A capacidade de manter a completa lucidez nas cenas de ação, diante da intensidade dos movimentos e do desenfreado pisca-pisca de luzes foi foco para discussão envolvendo o lançamento de Os Incríveis 2 que, pelo que alertou a norte-americana Verônica Lewis, poderia provocar convulsões. Acatando reivindicação da espectadora, antes do início das exibições da fita que deu continuidade ao longa de 2004, vencedor do Oscar de melhor filme de animação, a Disney tornou pública, em cartazes, a possibilidade de efeitos desagradáveis ecoarem nas sessões.

Fisicamente, menos agressivos, os efeitos de fitas infantis como A Pequena Sereia (com algumas músicas que desautorizam qualquer emancipação feminina) tocam perigosamente nuances psicológicas. Naquele filme de 1989, há generalizações, como as externadas pela bruxa Úrsula para a jovem Ariel: ;Só as bem quietinhas vão casar; estão entre mensagens passíveis de contestação. Já da animação A Bela e a Fera, pioneira a colocar o gênero entre os finalistas a melhor filme no Oscar, brota outra curiosidade subliminar: uma caveira é refletida na pupila do personagem Gastão.

Átimos são o suficiente para que o que seja quase imperceptível se instaure. No clássico Psicose, por exemplo, há a sobreposição de uma caveira, num lampejo, bem na cara do protagonista. Esse filme de 1960 assinado pelo mestre Alfred Hitchcock leva à fusão, por décimos de segundo, de Norman Bates (Anthony Perkins) à imagem de um crânio, justo quando, depois de conduzido à prisão, ele tem o depoimento colhido. Também numa circunstância solitária, Will Smith protagoniza Eu sou a lenda (2007), com direito à emblemática cena na Times Square que embute mensagem aparentemente invisível: em meio a ambiente apocalíptico, o filme traz uma peça publicitária estampada, em que Superman enfrenta Batman (fato materializado num filme de 2016).

Haja ruído!

Silenciosos, os dados subliminares ainda invadem filmes inofensivos como O âncora: A lenda de Ron Burgundy (2004), em que a zoação no filme (todo em inglês) está na fachada do restaurante mexicano batizado como Escupimos en su Alimento (abertamente, um enunciado de que os pratos são servidos com cuspidelas). Num plano ainda mais aterrador, o argentino Gaspar Noé revestiu a sonoridade de Irreversível (2002) ; famoso pela cena de estupro da personagem de Monica Bellucci ; com perturbadora frequência de ruído praticamente inaudível, mas incômoda, como ele admitiu quanto à produção.

Provocativo e revolucionário, o terror O exorcista (1973) teve sessões norte-americanas respaldadas pela distribuição de sacos descartáveis para vômito da plateia dado o efeito no público que consagrou a adaptação do livro de William Peter Blatty, por sua vez ancorada num episódio real de 1949 de exorcismo no Missouri.

Vencedor do Oscar de melhor som, o filme trouxe subliminares: à fita, foram introduzidos mesmo em momentos de absoluto silêncio, zunidos de abelhas e o barulho do sacrifício de porcos. Uma carteira de couro, recheada de cartões de crédito, e amassada ao microfone, por exemplo, guarneceu o som da famosa girada de cabeça da personagem de Linda Blair. Também ruidoso ; ainda que substanciado em associações de imagens ; o conteúdo subliminar invadiu outro campeão de audiência, emplacado há 20 anos: Clube da luta, adaptado de livro de Chuck Palahniuk. No filme de David Fincher, o personagem Tyler Durden (Brad Pitt), aos moldes perversos, insere imagens pornográficas, como ele confessa, logo de cara, nas fitas a serem mostradas à plateia infantil.


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