Ato pela paz nas escolas

Ato pela paz nas escolas

» WALDER GALVÃO
postado em 06/05/2019 00:00
 (foto: Mariana Almada/Divulgação)
(foto: Mariana Almada/Divulgação)

A morte do professor Júlio César Barroso de Sousa, 41 anos, assassinado a tiros por um adolescente de 17 anos no Colégio Estadual Céu Azul, em Valparaíso (GO), reacendeu o debate sobre a situação de educadores dentro de sala de aula. Revoltados com a violência e com as condições de trabalho, docentes de diversas regiões administrativas do DF e do Entorno fizeram protesto em Santa Maria, pedindo a valorização da categoria.


A manifestação começou, por volta das 9h, em frente ao shopping da cidade. Mais de 100 pessoas caminharam por mais de 2km até o Centro de Ensino Fundamental 209 (CEF 209). Seguindo um carro de som, usando camisetas pretas e munidos de faixas, pedindo mais amor e menos ódio, os manifestantes fizeram o percurso em cerca de três horas. Muitos dos participantes usaram o microfone para homenagear Júlio ou cantar músicas religiosas.


Uma das faixas da Avenida dos Alagados permaneceu interditada durante o trajeto. Compareceram ao protesto as deputadas Erika Cokay (PT) e Jaqueline Silva (PTB), das esferas federal e distrital, respectivamente. Hamilton Caiana, um dos diretores do Sindicado dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), ressaltou que a morte de Júlio causou comoção entre os educadores e fez com que todos se preocupassem com a situação das escolas de Brasília e do Entorno.


;Esse ato é para pedir paz e simbolizar a vulnerabilidade das nossas unidades de ensino;, afirma. Professora há 23 anos, Kesia Raquel Santana, 55, se aposentou este ano, após ter lecionado em escolas de Santa Maria. ;Toda situação é muito triste e preocupante. Estamos em um ambiente escolar para formar cidadãos. Um dia, qualquer um de nós pode ser vítima;, lamenta. Kesia relata como a comunidade de educadores ficou abalada com a história de Júlio. ;Vivemos de tudo dentro de sala de aula e precisamos de assistência;, cobra.


Comoção
Familiares de Júlio também compareceram à manifestação. Em entrevista ao Correio, a mulher dele, Daiani Alves, 31, apontou as dificuldades que o marido sofria no ambiente escolar. ;Às vezes, ele chegava à casa triste, porque a escola não oferecia estrutura para ele trabalhar. Quando entrei lá para reconhecer o corpo dele, eu me senti em uma prisão, num lugar muito triste, cheio de grades. Colégios não deveriam ser assim;, frisa. Apesar das dificuldades, Daiani ressalta que o marido morreu se dedicando a algo por que era apaixonado: lecionar.

;Minha ficha ainda não caiu. Várias vezes, fico esperando ele para jantar ou chegar do trabalho, sem perceber. Cada dia que passa, vou assimilando mais, mas tudo é muito triste;, desabafa. Júlio era casado há 15 anos e morava em Santa Maria. Ele deixou dois filhos, de 3 e de 6 anos. No Colégio Estadual Céu Azul, ele dava aulas de inglês durante o turno da manhã e, à tarde, atuava como coordenador. Alunos ouvidos pelo Correio destacaram que o professor era ;gente boa; e exigente, sempre cobrava as atividades de todos.



Memória

O caso

Uma discussão em sala entre o adolescente responsável pelos disparos e uma professora teria motivado o crime. Na manhã da última terça-feira (30), o suspeito teria ameaçado a educadora, e Júlio, coordenador da unidade de ensino, interveio, dizendo que transferiria o aluno da instituição. Irritado, o jovem o ameaçou. Por volta das 15h, o acusado voltou à escola e, armado, atirou contra a vítima. Um dos disparos foi nas costas; outro, na cabeça.

O adolescente foi apreendido menos de 24 horas após o crime. Investigadores conversaram com a mãe dele, que decidiu entregar o filho às autoridades. Os agentes o encontraram em cima de um pé de uma árvore, no Pedregal, bairro do Novo Gama (GO), na casa de parentes. Aos policiais, o adolescente admitiu o crime e disse que a arma usada para matar Júlio seria de um amigo. O revólver foi encontrado em um terreno baldio, ao lado da casa do suspeito, contestando a versão dele.

Júlio foi velado na última quinta-feira (2), na Capela Divino Espírito Santo, em Santa Maria, e foi sepultado no mesmo dia, no Cemitério de Brazlândia. Cerca de 200 pessoas, entre amigos, familiares e colegas de trabalho, se despediram do professor. A cerimônia foi marcada por revolta e por protestos contra violência nas escolas, que se intensificaram durante as homenagens ao educador.



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