Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 06/05/2019 00:00
Samba que vive e resiste

O samba não morre com o fim do desfile na avenida, nem se apaga no encerramento do show, com o adeus da plateia. O samba resiste nas vozes que ecoam pelos morros, por ruas encantadas e vive, mais do que nunca, no sorriso de sua madrinha Beth Carvalho.

Até mesmo o mais desligado morador do Planalto Central sabe o que significa subir mais de 1.800 colinas e não ver a sombra de quem deseja encontrar. Ou, mesmo louco de paixão depois de ter encontrado o amor de toda a vida, canta, a plenos pulmões, os versos de Vou festejar no carnaval.

Na semana em que nos despedimos da cantora, foi prazeroso também lembrar que, graças a ela e à engenheira brasileira da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) Jacqueline Lyra, a música nacional ganhou o espaço. Há mais de 20 anos, Coisinha do pai despertou um robô em Marte.

A mulher de voz poderosa levou a potência para além do canto. Construiu as bases de uma carreira que iluminou a de tantos outros, no samba, no pagode, em todo ritmo capaz de fazer o corpo mexer e a voz falhar de tanto repetir versos com harmonia digna de nota 10. E ainda deu mais emoção às letras já carregadas dela, escritas por Cartola.

Decidi registrar nestas linhas a admiração por Beth e seu legado não apenas em razão da partida que nos entristeceu, mas por todas as vezes em que deixamos de valorizar o trabalho de mulheres que são de resistência, de brilho, de voz encantadora, de inteligência devastadora, de chegada impactante, de colo acolhedor. Aquelas que nos dão razões diversas para nos orgulharmos. Que não passarão.

A mulher que se imortalizou diva e rainha cantava tudo isso nos primeiros versos da canção que a tornou conhecida em todo o país: ;Vim, tanta areia andei / Da Lua cheia, eu sei / Uma saudade imensa / Vagando em verso, eu vim / Vestido de cetim / Na mão direita, rosas / Vou levar;. Andança a levou ao terceiro lugar no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1968 e marcou o início da carreira estrelada.

Agora, Beth, chegou a hora de chorar. Ah, mas como temos tantas razões também para festejar.

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