E daí que haja fome?

E daí que haja fome?

Cida Barbosa cidabarbosa.df@dabr.com.br
postado em 11/05/2019 00:00
Não é o caso de dizer que a miséria bate à porta da casa de David. Ela já entrou e se instalou. Chegou acompanhada de uma amiga inseparável: a fome. Mas David é um menino valente. Se não pode com as duas famigeradas, trava batalha contra uma delas. Em Senador Canedo (GO), onde mora, conseguiu numa padaria doação de pães amanhecidos, que divide com os dois irmãos mais novos. Assim, dia a dia, vão driblando como podem a carência alimentar. A terceira criança da família, de 8 anos, morreu no último dia 3. Tinha microcefalia e sopro no coração, conforme mostrou reportagem do portal G1 nesta semana.

David, de apenas 10 anos, e os irmãos enfrentam uma vida de privações num lar em que ninguém trabalha. Os pais estão no grupo dos 13 milhões de desempregados do Brasil. Um panorama persistente e aterrador. Não é difícil deduzir o contingente de famílias, neste rico país, que enfrenta situação de penúria semelhante à do menino goiano. O relatório ;O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018;, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no fim do ano passado, mostrou que, em 2017, 5,2 milhões de pessoas estavam subnutridas por aqui. Um dos motivos era a crise econômica. Se nada melhorou de lá para cá, é fato que esse número já não reflete a realidade.

E não há esperança a curto prazo para os desvalidos. Enquanto eles sofrem sem comida no prato, as prioridades no Brasil têm sido liberação de porte e posse de armas; censura a universidades; cortes de verbas em áreas prioritárias, como educação e saúde; guerras ideológicas; bate-bocas de autoridades públicas via internet; freio nas ações contra corrupção ; um poderoso canal de drenagem de recursos que poderiam ser investidos em políticas sociais. E cito apenas alguns dos absurdos que dominam a nação. Nada de uma agenda capaz, efetivamente, de reativar a economia, gerar emprego, propiciar crescimento, diminuir desigualdades. É desanimador, é desesperador. O que será de David e de tantas crianças impactadas pela miséria neste país? A pressa dos que têm fome não encontra eco entre os que estão de barriga cheia.




Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação