Conexão diplomática

Conexão diplomática

São várias as afinidades do novo governo brasileiro com esse bloco avesso a temas como os acordos internacionais sobre mudanças climáticas e amparo à imigração

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 11/05/2019 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)

Tecendo alianças no Velho Mundo

O roteiro da turnê do chanceler Ernesto Araújo pela Europa, nos últimos dias, traduz em nomes e datas o mapa das alianças construídas pelo governo Bolsonaro no âmbito externo. Itália, Hungria e Polônia são três das pontas de lança, no continente, da direita populista e eurocética, com pendores para um nacionalismo pautado na rejeição ao multilateralismo. Muito sintomaticamente, o principal interlocutor do ministro em Roma não será o titular das Relações Exteriores, mas o do Interior, Matteo Salvini. Expoente da legenda direitista Liga, cujas raízes estão no movimento separatista do próspero norte da Itália, Salvini é na prática o homem forte do gabinete, inclusive na frente diplomática. É quem articula uma coligação informal da extrema direita na campanha para eleição do Parlamento Europeu, dentro de duas semanas, com a meta de construir uma bancada capaz de influir nos rumos da União Europeia.

Em especial na política externa, são várias as afinidades do novo governo brasileiro com esse bloco avesso a temas como os acordos internacionais sobre mudanças climáticas e amparo à imigração. O contraste é claro com governantes europeus da direita dita ;clássica; ou ;republicana;, como a chefe de governo alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Emmanuel Macron. Até mesmo a premiê britânica, Theresa May, embora esteja à frente dos trâmites para o Brexit, contrasta com os eurocéticos mais radicais do Partido Conservador, como o ex-chanceler Boris Johnson.

No foco de convergência entre Bolsonaro e os potenciais aliados no Velho Mundo está um estrategista político americano, Steve Bannon, que acompanhou Trump na conquista da Casa Branca, em 2016, deu conselhos à equipe de campanha do presidente brasileiro, na eleição de 2018, e neste ano montou acampamento na Europa para acompanhar a disputa pelo Parlamento Europeu.

Amizade colorida
Começou em Brasília a contagem regressiva para o anúncio formal, por parte de Donald Trump, da elevação do país à categoria de ;aliado preferencial extra-Otan;, status conferido a parceiros como Japão e Argentina ; no total, são hoje 17 países, dos quais o Brasil se tornará o segundo latino-americano. Entre outras possíveis vantagens, esse status propicia facilidades na aquisição de armamento dos EUA. No terreno político e diplomático, sinaliza uma aproximação nas políticas de defesa.

Ainda que sujeita às diferenças de tons que possam se desenvolver entre os dois governos, ao longo do tempo, a relação bilateral que passa a se estabelecer ganha os contornos de uma amizade algo mais íntima e condimentada. Mas que não chega a um namoro. Fica abaixo, nessa escala, da parceria global firmada pela Otan com a Colômbia, único país da América Latina a ostentar, desde o ano passado, esse título ; que não a coloca no patamar dos membros efetivos da aliança militar ocidental, mas a qualifica para participar de operações conjuntas.

Longa marcha
Da perspectiva dos emissários externos e interlocutores do Planalto e do Itamaraty, a expectativa é pela visita do vice de Bolsonaro à China, em junho. Coincidindo com um período particularmente intenso nas disputas comerciais entre Pequim e Washington, a viagem do general Mourão ao outro lado do mundo será oportunidade para conferir uma vez mais a extensão das dissonâncias entre ele e o presidente. Ainda como deputado, o capitão causou incômodo ao governo chinês por ter feito visita oficial a Taiwan, considerada pelo regime comunista como uma província rebelada.

Nos primeiros meses desde que subiu a rampa do Planalto, Bolsonaro teve a oportunidade de ressaltar a posição da China como principal parceira comercial do Brasil. Embora tenha se distanciado de iniciativas como os Brics, especialmente em sua projeção geopolítica, o novo governo tem enfatizado o interesse em avançar no rumo definido pelo chanceler Araújo como baliza para a política externa ; a atenção prioritária, ou quase exclusiva, às relações de ordem bilateral. É nesse diapasão que se espera que soe o general, a despeito de diferenças de abordagem (que não procurou esconder ou suavizar) com o presidente, os filhos e o titular do Itamaraty.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação