Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Humberto Rezende humbertorezende.df@dabr.com.br
postado em 11/05/2019 00:00
A droga mais poderosa do mundo

Encontrei uma amiga que não via há tempos perambulando por uma comercial da Asa Norte. A meia distância, já deu pra perceber que algo estava diferente. ;Ana não está bem;, pensei, enquanto nos aproximávamos, e eu observava suas olheiras fundas, o cabelo que não devia ver água fazia dias e a camisa amassada com umas manchas estranhas.

Com olhar perdido, ela teria passado por mim se eu não a tivesse chamado. Ao ouvir seu nome, ela tomou um susto. E, então, sorriu abertamente e me abraçou. ;Acho que Ana está usando drogas;, pensei, preocupado. ;Como você está?;, perguntei. ;Estou ótima!”, exclamou. ;É droga;, concluí, mas me fiz de desentendido e perguntei o que havia acontecido. ;Ah, o Lucas, né?;

Lucas? Quem seria Lucas?, me questionei, tentando fazer cara de que tinha entendido. E Ana continuou: ;Olha, ser mãe cansa. Estou acabada. Hoje, não consegui nem tomar banho, faz dias que eu não durmo direito e, agorinha mesmo, ele golfou aqui no meu peito. Mas, só de descer para ir à padaria, eu já tô com saudade;. Ops! Era um caso de maternidade, não de dependência química. Dei os parabéns, conversei um pouquinho mais e liberei a Ana para ir à padaria e voltar logo para o Lucas.

Confesso que me despedi envergonhado com a confusão que tinha feito. Mas, por fim, concluí que, de alguma forma, a minha amiga estava mesmo sob o efeito de uma droga fortíssima, talvez a mais poderosa do mundo: a troca de amor entre mãe e filho. É um estimulante natural e tanto esse! Por nós, as nossas mães viram quase super-heroínas, com força, coragem e resistência impressionantes. E nós, filhos, quando estamos com elas, temos a sorte de experimentar um prazer imenso, de aconchego, carinho e segurança.

Lembrei, então, das histórias que a minha mãe contou sobre a época em que eu e os meus irmãos éramos pequenos. Ela passava noites em claro e, mesmo assim, ia trabalhar no dia seguinte, sem garantia de que, quando outra noite chegasse, conseguiria dormir. Ela era professora e, de vez em quando, o cansaço era tão grande que dava um branco no meio da lição. Foi difícil, ela admitiu, mas nunca deixamos de nos sentir amados.

Tudo isso não significa, porém, que não podemos melhorar a qualidade dessa potente droga de amor. É possível manter os efeitos prazerosos e reduzir bastante os colaterais, como o cansaço extremo. Divisão de tarefas iguais entre homens e mulheres e pais que assumem sua responsabilidade ; financeira e emocional ; com os filhos já seriam duas modificações e tanto.

Podemos pensar ainda na ampliação para mais mulheres da licença-maternidade de seis meses; em creches públicas e de qualidade em maior número; em partos humanizados, sem violência obstétrica e que respeitam os desejos e necessidades da mãe e do bebê; no direito de amamentar livremente, sem repressão nem olhares de desaprovação... Afinal, passou da hora de melhorarmos o que já é muito bom.

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