Dostoiévski versus Gógol

Dostoiévski versus Gógol

Vera Lúcia de Oliveira*
postado em 11/05/2019 00:00
 (foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)


A passagem mais interessante, literariamente falando, do romance Gente pobre, de Dostoiévski, é aquela em que Makar Diévuchkin lê O capote, de Gógol, e fica injuriado. Escreve imediatamente à jovem Varvara Alieksiévna, sua amiga querida e correspondente que lhe havia emprestado o livro para ler. A carta é tão indignada que chega a ser muito divertida para o leitor. Ofendido, ele a critica severamente por fazer uma coisa dessas com ele.

Depois de fazer uma exposição de sua situação e uma defesa apaixonada de sua integridade moral, como cidadão e funcionário que vive em paz sem molestar ninguém, temente a Deus, diz à Varvara que não é bonito zombar assim de um pobre homem. ;Como pôde você, Várienhka, tomar a decisão de enviar-me semelhante livro? Um livro maligno, um livro prejudicial (...) Um panfleto! Isso é que o livro é;, afirma ele.

Mas por que Makar Diévuchkin se identificou tanto com a personagem de O capote a ponto de achar que Gógol teria se inspirado nele? Por que Dostoiévski cria essa página no seu primeiro romance? A resposta, segundo o biógrafo e crítico Joseph Franck, é que Dostoiévski se ressentia da comparação que a crítica fazia entre os dois virando o prato da balança para o genial Gógol. Nessa época, Dostoiévski era um escritor de vinte e poucos anos, mas com um potencial artístico, humano e filosófico que ninguém poderia supor, mesmo os críticos e leitores experientes.

Assim, nesse momento, Gógol foi a sua pedra no sapato. Hoje, porém, favorecidos pelo distanciamento de quase dois séculos, podemos avaliar melhor essas obras. O mais interessante até aqui é supor uma quase vingança de Dostoiévski que, ao criar esse quadro, deixa no leitor a ilusão de que sua personagem não é personagem, e sim uma pessoa de carne e osso, indignada porque ;um autor de literatura;, um ficcionista, Gógol, ;criou; uma personagem a partir dela, no caso Diévuchkin.

Dostoiévski inverte, portanto, o jogo a seu favor. É muito engenhoso, e, mais que isso, cria um ;trompe-loeil;, uma ilusão de ótica, pois, se Diévuchkin se queixa de Gógol, isso significa que a obra deste sucede a de Dostoiévski, o que não é verdade, pois O capote é de 1842 e Gente pobre, de 1844, só publicado em 1946.

Mas há uma diferença substancial entre esse primeiro romance de Dostoiévski e a novela de Gógol: a crítica que Dostoiévski faz à falta de humanidade de Gógol em relação a seu protagonista. Diz Diévuchkin que o autor poderia ter dado outra solução para a sua história; Akaki poderia, por exemplo, ter recuperado o seu capote. Ou, ;se é que, irremediavelmente, tinha de morrer, que todos chorassem por ele...; Mas o melhor mesmo seria que ele não tivesse morrido e tivesse um cargo maior na repartição, ;aumentando-lhe o ordenado, de tal maneira que o mal tivesse sido castigado e a virtude recompensada...; Esse humanismo de Dostoiévski, que se revela desde esse primeiro romance, é o que o diferencia do irônico Gógol. Como afirma Franck, Gógol é o riso, Dostoiévski, as lágrimas. ;Saímos todos do capote de Gógol;, disse Dostoiévski.

Vera Lúcia Oliveira é professora de literatura.



Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação