A tragédia do desrespeito à educação

A tragédia do desrespeito à educação

MARCELO BIZERRIL Diretor do câmpus de Planaltina da Universidade de Brasília

postado em 18/05/2019 00:00
Penso que um ministro da Educação deva ter ao menos duas qualidades, o que também não considero que seja exigir muito: entender de educação e gostar de educação. O currículo do senhor Abraham Weintraub revela que ele não atende à primeira premissa, adequando-se mais ao cargo de ministro da Economia. No entanto, como não domino a área econômica, prefiro não emitir opiniões sem fundamentação alguma, pois isso frequentemente ofende pessoas. Contudo, ainda poderia haver esperanças de que o ministro da Educação demonstrasse gosto pela educação, afinal, como diria o patrono da educação brasileira, que também parece não agradá-lo, o educador ;lida com gente e não com coisas;. Daí por que me indigna ver o ministro da Educação se dirigir à Comissão de Educação do Senado Federal para classificar a expansão do ensino superior ocorrido no Brasil como uma ;tragédia;. Estando presente em um câmpus criado em 2006, no início do Reuni, na periferia de Brasília, ouço isso como um desrespeito de dimensões muito maiores que possivelmente o próprio ministro possa ter ponderado.

É óbvio desrespeito a todos que passaram pelo seu cargo e que, independentemente das disputas eleitorais, compreendem a defasagem histórica de acesso da população brasileira ao ensino superior, como também acompanham seu processo de expansão em todo o mundo. Afinal, vivemos na era do conhecimento, e os países que ignorarem esse fato serão destinados a prover o mundo desenvolvido de matéria-prima e trabalho de baixa qualificação.

O desrespeito atinge também os trabalhadores do governo federal, sobretudo do próprio Ministério da Educação, que tanto lutaram para viabilizar a expansão que tem dimensões reconhecidas internacionalmente e orgulha os responsáveis pelo feito. A fala do ministro desrespeita reitores, conselhos universitários e equipes de gestão das universidades que se debruçaram em projetos de criação dos câmpus, dos novos cursos, ponderando as possibilidades e riscos, e trabalhando arduamente para a sua viabilização.

Desrespeita os professores e técnicos que fundaram câmpus de universidades federais em localidades distantes dos centros urbanos e de suas reitorias, assumindo desafios até então inéditos no âmbito do ensino superior público no Brasil.

Mas o mais grave desrespeito é com a população brasileira, sobretudo a mais pobre. É com a juventude que essa camada pode finalmente acessar uma parte do ensino público que historicamente era quase exclusivo das classes mais abastadas. A mudança do perfil do estudante da universidade pública no Brasil, a partir da expansão, está descrita em artigos publicados dentro e fora do Brasil e acessíveis para quem se dispuser a lê-los.

Quero crer que tanto desrespeito não tenha sido o objetivo do ministro, mas a consequência de sua falta de conhecimento de causa, o que tem sido recorrente no governo federal em 2019. Pergunto-me se o ministro da Educação conhece uma mínima parte que seja dos câmpus construídos no processo de expansão das universidades federais. Se tem conhecimento do impacto dos projetos de extensão e das parcerias das universidades com setores locais da sociedade nos municípios onde se instalaram. Se, conhecedor da área econômica, avalia o impacto dos recursos federais no desenvolvimento local, não apenas na renda per capita, mas também no desenvolvimento humano em suas diversas possibilidades.

Se já olhou nos olhos da juventude recém-formada em uma universidade federal na condição de primeira pessoa da família a ter acesso ao ensino superior de alta qualidade. Se conceberia pensar no significado da mudança social que é para aquela família ter gente formada nesses termos, com outras possibilidades culturais e de acesso ao trabalho, pois não é apenas na educação básica que se muda a sociedade, mas é exatamente no acesso ao curso superior que o jovem mudará a condição social, o que deverá interferir em toda sua família e descendentes.

Nosso país precisa investir em educação em todos os níveis e possibilidades. Um ministro da Educação que entende e gosta de educação sabe que a solução para a melhoria da área no país não passa por criar disputas entre os diferentes níveis de educação, muito menos por se posicionar como adversário de universidades ou escolas, mas de fazer o dever de casa, que é lutar internamente no governo do qual participa para conseguir mais e melhores condições para todos os níveis da educação.





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