Conexão diplomática

Conexão diplomática

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 18/05/2019 00:00
 (foto: Kelly West /AFP)
(foto: Kelly West /AFP)


De volta ao palco, longe do consenso

A visita de Jair Bolsonaro ao Texas, para receber um prêmio da Câmara de Comércio Brasil-EUA, serviu para confirmar que o Brasil está de volta às atenções internacionais, ainda que em posição mais vulnerável e discutível que a da primeira década do século, quando recebia atenções unânimes dispensadas a um país de dimensões consideradas infinitamente maiores que o espaço ocupado e a influência exercida no cenário global. Seja pelos rapapés com que foi recebido em março por Donald Trump, seja pela reação dos setores liberais e de esquerda ao seu ideário, o novo presidente não passou em branco ; diferentemente do que aconteceu, nos últimos dois anos, com Michel Temer em seu ;mandato-tampão;, ou mesmo com Dilma Rousseff, avessa à política externa e atolada nas crises domésticas, especialmente depois de reeleita.

Rejeitado em Nova York, onde o prefeito democrata Bill de Blasio liderou a resistência ao visitante, Bolsonaro chegou a cancelar a viagem, mas enfim optou por mudar o destino da Costa Leste, reduto progressista, para o conservador Texas. De última hora, a equipe arranjou um encontro com o ex-presidente George W. Bush, expoente da ala ;racional; e ;compadecida; do Partido Republicano. Ainda assim, o presidente foi alvo de manifestações e ouviu reparos do prefeito de Dallas, um político negro da oposição democrata. O balanço de perdas e ganhos das incursões iniciais no cenário externo está apenas se esboçando.

...mas falem de mim

Nos círculos diplomáticos, do país e dos interlocutores, a impressão que prevalece é de que está em curso um realinhamento da política externa de volta ao tom proativo dos anos Lula, ainda que com um viés quase que 180 graus inverso. De coadjuvantes algo tímidos, o Planalto e o Itamaraty assumiram o leme da articulação sul-americana em torno da crise na Venezuela. Não por coincidência, foi com o chanceler Ernesto Araújo presente e ativo em Washington que se concatenou, na virada de abril, a tentativa (frustrada) do presidente autoproclamado Juan Guaidó para comandar um levante militar contra Nicolás Maduro.

Igualmente na Europa, o governo Bolsonaro costura os laços com os representantes de forças afins ; coincidência ou não, as mesmas que cerram fileiras com os EUA de Donald Trump. Na turnê que fez pelo continente, na semana que passou, o chanceler marcou presença na Hungria do premiê Viktor Orban, uma das estrelas da ultradireita eurocética nas eleições da próxima semana para o parlamento europeu. Outro interlocutor, em Roma, foi Matteo Salvini, ministro do Interior e homem forte do gabinete compartilhado entre seu partido, a Liga, e o Movimento Cinco Estrelas, legenda de protesto fundada por um comediante, que se tornou o grande fenômeno eleitoral dos últimos anos, no vácuo da crise de representação das forças tradicionais de direita e esquerda.

Terra prometida


As expectativas de diferentes observadores e interlocutores se voltam agora para o desenrolar dos movimentos na frente crítica do Oriente Médio ; em particular, do conflito centenário entre israelenses e palestinos. Ao escolher o Estado judeu como um de seus primeiros destinos oficiais como presidente, depois de ter acenado desde a campanha com o reconhecimento de Israel como sua capital, Bolsonaro colocou o Brasil claramente de um dos lados da disputa. Pela sintonia indisfarçável com os movimentos de Donald Trump, a recolocação do país no tabuleiro geopolítico dá fundamentos a quem espera, do Planalto e do Itamaraty, ao plano que o presidente americano ensaia anunciar, talvez em junho, como base para a retomada do processo de paz, estagnado há praticamente uma década.

O pouco que transpirou sobre a proposta americana pode ser apreciado pela reação transparente do chanceler palestino, Riad al-Malki, que se referiu ao plano como um convite ;à rendição; perante Israel e os EUA. Tudo indica que o roteiro traçado por Jarred Kushner, o genro judeu de Trump e assessor especial da Casa Branca, configura o desembarque de Washington da ;solução de dois Estados;, que prevê uma Palestina soberana lado a lado com Israel.

Pra lá de Teerã

É nesse contexto que se desenrola a aproximação entre o governo de Bolsonaro e o do premiê Benjamin Netanyahu, realçado pela recente troca de visitas ; Bibi, como é conhecido em seu país, foi a estrela internacional na cerimônia de posse do presidente brasileiro, em 1; de janeiro. À parte as idas e vindas quanto à transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, seguem a todo vapor as conversações em diversos níveis entre os dois países. Na semana que se encerra, o ponto alto desse roteiro foi a reunião de consultas de alto nível, realizada em Brasília. Nela, foi costurado o apoio brasileiro não apenas ao plano Trump para a questão palestina, mas também à escalada militar dos EUA no Golfo Pérsico, em desafio aberto ao Irã ; que Netanyahu trata como ;ameaça existencial; a Israel.



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