O amor que move novas famílias

O amor que move novas famílias

Semana Nacional da Adoção, celebrada de hoje a 26 de maio, destaca situação de crianças e adolescentes que aguardam há anos para ganhar um lar

» RENATA NAGASHIMA*
postado em 19/05/2019 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)


;Não nasceram de mim, mas nasceram para mim.; É assim que Kátia Vanessa Pinto Nogueirol, 34 anos, define a chegada dos filhos, André Lucas, 10, e Sarah Cristina, 9, irmãos adotados pela família há um ano. Consciente de que a procura para adotar crianças pequenas é maior, a contadora e o marido, Daniel Breves Nogueirol, 35, optaram pela chamada adoção tardia, quando as crianças têm mais de 5 anos. ;Há muitas outras crianças precisando e sonhando com um pai e uma mãe, mas que acabam crescendo em abrigos, sem esperança e sem expectativas;, frisa.

No Distrito Federal, de acordo com um levantamento feito pela Vara da Infância e da Juventude (VIJ), são cerca de 130 crianças e adolescentes aguardando para serem adotados e 543 famílias habilitadas no cadastro local. Porém, apesar do número de interessados em adotar ser alto, 94% dessas famílias só aceitam crianças de até 3 anos de idade. Essa realidade é lembrada de maneira ainda mais marcante neste mês, em que se celebra a Semana Nacional da Adoção (leia Para saber mais).

A ideia da adoção começou a surgir nas conversas de Kátia e Daniel em 2012, mas só quatro anos mais tarde, quando se mudaram de Votorantim (SP) para Brasília é que procuraram a Vara da Infância para conhecer o processo de adoção. ;A princípio, foi esquisito preencher uma ficha com as características dos nossos tão sonhados filhos, pois não estávamos fazendo uma lista de compras. Depois, entendemos que essa burocracia é importante para minimizar os casos em que há incompatibilidade entre os adotantes e as crianças;, recorda Kátia.

Após passarem pelo processo de habilitação da VIJ, Daniel foi a uma reunião em que viu as fotos de dois irmãos que possivelmente adotariam. ;Costumo dizer que ele foi no meu ultrassom sem mim;, brinca Kátia. ;Saindo de lá, ele me ligou emocionado, dizendo que eles se pareciam comigo. Quando vi fotos da Sarah e do André, eu me apaixonei. Na verdade, já os amava só por ouvir falar deles.;

Em 2 de abril de 2018, os quatro se conheceram e a ficha de que estavam se tornando pais começou a cair. Não foi fácil para o casal visitar as crianças no abrigo e, todos os dias, terem de se despedir em seguida, mas eles entendiam a importância de respeitar cada etapa da adoção.
;Eles são o brilho dos meus olhos, a alegria e a bagunça da nossa casa. Aprendi a ser mais forte com eles, a ter mais afeto. Aprendi que não precisa ser uma mãe perfeita, mas sim a mãe presente. Nós nos sentimos privilegiados por sermos pais deles. Deus nos deu muito mais do que pedimos e esperamos;, resume ela.

Novo horizonte

A presidente do Grupo de Apoio à Convivência Familiar e Comunitária (Aconchego), Soraya Pereira, reconhece que a cultura das famílias interessadas em adoção está mudando e tabus sendo quebrados. ;As pessoas estão começando a perceber que elas podem, sim, lidar com a adoção de uma criança mais velha. Não é algo impossível, apenas trabalhoso, como qualquer outra adoção.;

A psicóloga frisa que o desconhecido causa medo e insegurança em qualquer pessoa. Por esse motivo, é importante falar mais sobre adoção tardia e levar conhecimento para os adotantes. ;Temos que deixar conhecido o desconhecido. Ninguém consegue amar algo que não conhece;, acrescenta.

Apaixonada por crianças, Luciana Ribeiro Brandão, 37, sempre ajudou os irmãos cuidando dos sobrinhos. Com o tempo, o desejo de ser mãe foi brotando no coração da professora. Solteira, a opção mais viável para ela parecia ser a adoção, já que também não tinha desejo de engravidar. Depois de habilitada para o processo, as buscas começaram.

A idade-limite da criança no perfil da brasiliense era 6 anos e poderiam ser até dois irmãos, mas ela começou a cogitar a possibilidade de acolher uma criança com necessidades especiais. ;Nas redes sociais, em páginas de grupos de apoio, comecei a buscar uma criança dentro do meu perfil. Foi quando achei em uma lista: menino negro, 5 anos, baixa visão e deficit cognitivo. Na mesma hora meu coração acelerou e vi que tudo batia;, recorda.

Assim que começou o processo de habilitação, ela passou a frequentar um grupo de apoio do Aconchego e conseguiu lidar com todas as dificuldades com menos sofrimento. ;Foi muito doloroso, principalmente o tempo de espera;, admite. Quando finalmente a adoção foi aprovada, Luciana passou a ser acompanhada por profissionais. ;Eles me ajudaram a vencer os desafios e me mostraram um novo olhar da adoção. Com isso, consegui encarar as coisas com mais leveza e aprendi a curtir cada momento e etapa do processo.;

Há quatro anos ao lado de Gabriel Luiz Ribeiro Brandão, 9, ela afirma que o pequeno a apresentou um novo horizonte. ;O Gabriel me faz viver o que eu nunca imaginei. Passeios que eu não faria, cachoeiras, parques e shows. Hoje, faço por ele e me divirto. Eu gostava de ficar em casa, assistindo a TV, e, agora, eu saio e mostro o mundo para ele. Esse é o meu papel;, resume. ;Ele é uma criança incrível. Eu olho para o Gabriel todos os dias e penso que o mundo inteiro não pode contemplar o que eu contemplo diariamente.;

Rede de ajuda
O Aconchego oferece apoio às famílias que estão em processo de adoção ou que já adotaram. O objetivo é que os adotantes formem entre eles uma rede de ajuda. Para mais informações sobre as reuniões acesse aconchegodf.org.br.
"O Gabriel me faz viver o que eu nunca imaginei. Passeios que eu não faria, cachoeiras, parques e shows. Hoje, faço por ele e me divirto"
Luciana Ribeiro Brandão

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