Dando voz ao luto

Dando voz ao luto

Aumento de pesquisas sobre os efeitos da perda de alguém próximo derruba o silêncio acerca do tema e favorece o surgimento de medidas de apoio aos enlutados. Segundo especialistas, são comuns os casos de suicídio e de surgimento de doenças psicológicas nesse período

» Vilhena Soares
postado em 19/05/2019 00:00
Antes pouco explorada no meio científico, a dor provocada por alguém próximo é uma experiência que tem despertado o interesse de pesquisadores. Dois estudos recentes reforçam o quanto precisamos falar ; e estudar ; mais sobre o luto. Um estudo australiano mostra que a dor pela morte de um amigo pode durar até quatro anos, muito mais do que o imaginado. Já uma equipe de cientistas dinamarqueses constatou que pessoas enlutadas que obtêm apoio psicoterápico apresentam menor risco de cometer suicídio e de desenvolver doenças psiquiátricas.

À primeira vista, a morte de um amigo, quando comparada a de um parente, pode parecer mais fácil de ser superada. Mas nem sempre é o que acontece. Um grupo de cientistas da Austrália analisou dados longitudinais e indicadores de saúde da Pesquisa de Dinâmica do Trabalho, Renda e Trabalho. Eles recolheram informações de 26.515 pessoas, sendo que 9.586 tinham enfrentado a morte de pelo menos um amigo.

Por meio de estudos comparativos, chegou-se à conclusão de que o tempo do trauma é, em média, quatro vezes maior do que o imaginado ; estudos anteriores sugeriram que o período de luto dura cerca de 12 meses. ;Descobrimos que há sérios declínios na saúde e no bem-estar de pessoas que sofreram a morte de um amigo próximo por um período de até quatro anos;, conta ao Correio Raymond Lui, um dos autores do estudo, publicado, semana passada, na revista especializada PLOS ONE.

O também pesquisador da Universidade Nacional Australiana (ANU) chama a atenção para o fato de essa diferença não se limitar apenas à duração do sofrimento. O apoio oferecido geralmente também não é o mesmo. ;Todos sabemos que, quando alguém perde um parceiro, pai ou filho, é provável que sofra por um período significativo. No entanto, a morte de um amigo próximo, que a maioria de nós também experimentará, não é vista no mesmo nível de seriedade por empregadores, médicos e comunidade;, frisa.

Esse desconhecimento sobre o tempo médio para a superação do luto pode causar um apoio inadequado, complementa Raymond Lui. ;Essas descobertas levantam sérias preocupações com a forma como administramos a recuperação de pessoas que lidam com a perda de um amigo próximo;, frisa. ;A morte de um amigo é uma forma de pesar desprivilegiada, não levada tão a sério. Isso está deixando as pessoas sem o apoio e os serviços de que precisam durante um período muito traumático.;

O especialista sugere algumas ações para amenizar o problema. Segundo ele, médicos e pessoas próximas precisam repensar o modo como abordam a dor de quem perdeu um amigo. ;Precisamos reconhecer que essa situação tem um preço alto e devemos oferecer serviços de saúde e psicológicos para ajudar essas pessoas durante um período adequado de tempo;, defende.

Pouco investigado

Segundo o psicólogo clínico Carlos Alexandre Araújo Benicio, grande parte das pesquisas sobre o luto tem como foco a morte de um parente de primeiro grau, que geralmente é o(a) cônjuge. ;Mesmo onipresente, o luto não parental, surpreendentemente, recebe pouca atenção na literatura;, compara. Por isso, segundo o especialista, o estudo australiano chama a atenção. ;Eles demonstraram que as relações de amizade são bem parecidas com as de parentesco. Quando um amigo morre, o luto pode ser experimentado de maneira similar à morte de parentes. A psicologia da amizade pode imitar a do parentesco.;

Marina Saraiva Garcia, conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal, acredita que o estudo internacional pode contribuir para a prática de auxílios mais eficazes, considerando, por exemplo, as especifidades da morte em questão. ;Imagine, por exemplo, um jovem que perde um amigo que se suicidou. O impacto na vida desse adolescente vai ser muito grande. Dar apoio a esse colega pode diminuir as chances de ele fazer a mesma coisa, pois sabemos que, nesses casos, existe esse risco;, exemplifica.

A psicóloga acredita que os desdobramentos do trabalho podem focar em outros elementos presentes na experiência do enlutamento. ;Uma pessoa mais velha, alguém que tenha uma religião, esses fatores e outros diversos podem influenciar a forma como alguém reage à perda de um amigo. São questões que valeriam ser mais exploradas para uma melhor compreensão;, sugere.

A especialista também chama a atenção para o fato de novos estudos sobre o tema contribuírem para formas mais eficazes de enfrentar o luto. ;As visões em relação a esse tema mudam constantemente por causa desses novos dados. Por muito tempo, achávamos que a mídia tratar o suicídio era algo negativo, que podia influenciar a prática do ato. Hoje, vemos que é necessário fazer isso, mas com uma abordagem correta, que informe e ajude a prevenir.;


"A morte de um amigo é uma forma de pesar desprivilegiada,
não levada tão a sério. Isso está deixando as pessoas sem o apoio
e os serviços de que precisam durante um período muito traumático"

Raymond Lui,
pesquisador da Universidade Nacional Australiana

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