Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

>> (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)
postado em 19/05/2019 00:00
Voo de beija-flor

Moro em um condomínio pequeno, pontilhado de jardins e fronteiriço a uma mata. E uma das graças que desfrutamos é receber a visita de beija-flores. Eles são pequenos milagres da natureza. Exercem o ofício lírico de polinizar as flores com beijos delicados e fugazes. Têm uma presença levíssima.

Queria falar sobre eles, mas, para ter algum respaldo científico, pedi a consultoria de Shirley Noely Hauff. Ela é bióloga, tem consciência coletiva, instaurou a coleta seletiva de lixo em nosso condomínio e nos educa todos os dias com ações de preservação do meio ambiente e seus viventes. Participou da publicação de um guia dos pássaros do condomínio, a um só tempo, científico e lírico.

Os jardins e a vizinhança da mata protegem uma área de encosta íngreme e atraem muitos animais silvestres. Fico fascinado e hipnotizado pelo voo dos beija-flores. Em nosso território, somos agraciados com pelo menos três espécies.

O beija-flor-tesoura é o maior e mais comum deles, tendo tamanho entre 15cm e 19cm. Sua cabeça, pescoço e parte superior do tórax são de um profundo azul-violeta e o restante do corpo de plumagem verde-escuro iridescente. Seu nome popular deriva de sua longa e bifurcada cauda, que parece uma tesoura, ensina Shirley.

Já seu nome científico, Eupetomena macroura, vem de palavras gregas que podem ser traduzidas como divindade (;eu;) sempre voando/sustentada pelas asas (;petonemos;) de longa (;makros;) cauda (;oura;).

Outro lindo beija-flor que vemos aqui é o beija-flor-do-rabo-acanelado ou branco (Phaethornis pretrei), que também é grande, com cerca de 15cm. Sua garganta, peito e parte superiores da cauda têm cor de canela, o dorso é esverdeado e a longa cauda bifurcada ostenta penas negras na base que contrastam com o branco de sua ponta.

O beija-flor-de-garganta-verde é o menorzinho dos três, tendo pouco mais da metade do tamanho dos outros dois. Mas ser o menor não significa menos belo: seu verde-claro predomina e brilha à luz do sol. Os olhos escuros são realçados pelo pequeno ponto branco que tem logo atrás.

O nome científico, Amazilia fimbriata, é homenagem à heroína inca da novela Les Incas, ou La destruction de l;empire du Pérou, do escritor Jean Marmontel (1777) e significa Amazilia com franjas (fimbriatum, do latim).

Todos esses beija-flores são da mesma família (Trochilidae) e defendem agressivamente seu território e também suas flores, lembra Shirley. Às vezes, é possível escutar as barrigadas que dão em outros pequenos visitantes para colocá-los longe de seu espaço. Você sabia que cada beija-flor visita cerca de mil flores por dia?

Pois é, tudo isso é para poder ter alimento (néctar) suficiente para sustentar o seu rápido bater de asas, que lhes dá grande velocidade e faz com que eles pairem no ar e voem para frente e para trás, com uma beleza estonteante. O voo veloz, ziguezagueante e vertiginoso do beija-flor parece drible de Garrincha ou chorinho de Waldir Azevedo.

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