Para que serve a filosofia?

Para que serve a filosofia?

ERICSON SAVIO FALABRETTI Doutor em filosofia e decano da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
postado em 24/06/2019 00:00
Não podemos cravar nenhuma resposta definitiva sobre essa questão dirigida a todo filósofo, geralmente por pessoas incrédulas. E o momento exige uma reflexão sobre o lugar, o uso e o alcance da filosofia e das Ciências Humanas na estrutura da nossa educação formal.

Primeiro, é preciso admitir, pelo menos no caso do Brasil, que a filosofia e as humanidades vivem em estado de alerta, esperando para serem retiradas dos currículos escolares e do sistema público de financiamento de ensino e pesquisa, ainda que o seu lugar seja sempre pequeno e seu custo para os contribuintes praticamente desprezível. Todavia, por que as humanidades têm essa existência incerta, mínima e pobre? Seria a filosofia estéril para o desenvolvimento da leitura, da escrita e do raciocínio matemático das nossas crianças que, ano após ano, têm nos ;envergonhado;, conforme atestam os rankings internacionais como o Pisa? Na última edição, realizada com escolas de 70 países, o Brasil foi o 59; colocado em Leitura e figurou entre os 10 últimos nas categorias matemática e ciências. Seriam as humanidades e tudo o que as acompanha, parafraseando Chico Buarque, a Geni do nosso sistema de Educação? Certamente, não.

Segundo, é necessário ter claro que do ensino fundamental ao Superior, as disciplinas de filosofia e ciências sociais ocupam um espaço praticamente inexpressivo quando consideramos os currículos escolares. O ensino de filosofia, excluindo algumas escolas particulares, praticamente inexiste no ensino fundamental ; o que é lamentável, pois se ensinássemos lógica, conteúdo filosófico nascido do corpus aristotélico, nossas crianças poderiam melhorar, e muito, suas habilidades de leitura e cálculo.

O estudo da lógica ; enquanto estrutura normativa do pensamento e da linguagem ; é fundamental para desenvolvermos a habilidade de estabelecer nexos racionais tanto a respeito de proposições linguísticas como de sentenças matemáticas. Não faz mais de 10 anos que as disciplinas de filosofia e sociologia foram, timidamente e em pequena escala, reintroduzidas aos currículos do ensino médio. É interessante notar que, além dos ganhos no âmbito do desenvolvimento de competências lógico-racionais, o ensino de humanidades responde aos novos dilemas existenciais, sociais, epistemológicos e éticos do nosso tempo, que devemos enfrentar em todos os níveis de ensino.

Além do mais, em um mundo cada vez mais desigual, no qual a luta de classes não parece mais explicar as complexas tensões sociais, é preciso escutar os sociólogos e apreender, por exemplo, que as crenças, as ideias e os valores são os principais agentes das mudanças sociais, ainda mais quando consideramos que em nossos dias ; nessa aldeia global ; comunicamos e trocamos ideias e valores com a mesma velocidade que respiramos. Não fosse isso, vivemos a era da técnica, do avanço tecnocientífico sem limites que parece indicar a obsolescência das humanidades e, o que é mais grave, da própria razão humana.

De modo evidente, do ponto de vista do trabalho, a Indústria 4.0 promete, de uma vez por todas, reduzir drasticamente a importância humana no que diz respeito à produção de riqueza, à organização social e política, à ordem da comunicação e da memória. Locomover-se, pensar, calcular, memorizar, escolher e analisar ; atividades propriamente humanas ; estão migrando rapidamente para as máquinas, de forma que já não caracterizam atividades tipicamente ou exclusivamente humanas. Como responder a isso? Como educar nossos jovens diante desse mundo de possibilidades impensadas? Como as humanidades podem enfrentar um mundo no qual a própria humanidade está sendo, de certo modo, tutelada pelas ;coisas;?

Integradas ao nosso sistema formal de ensino, o eixo de humanidades nos prepara para o desenvolvimento da competência mais humana entre todas, aquela que a inteligência artificial dificilmente atingirá: o pensamento crítico que, além de nos ensinar a ler, calcular e escrever, diferentemente das máquinas, nos previne do obscurantismo, da intolerância e da tecnofilia pura, pois como escreveu Voltaire: ;A superstição põe o mundo todo em chamas, a filosofia as apaga;.

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