Disputa entre os "dois grandes"

Disputa entre os "dois grandes"

postado em 24/06/2019 00:00
 (foto: Kenzo Tribouillard/AFP - 28/5/19)
(foto: Kenzo Tribouillard/AFP - 28/5/19)


A escolha do novo presidente da Comissão Europeia (CE), um dos cargos centrais em jogo na recomposição do bloco após as eleições de maio, se apresenta como o primeiro desafio para os governantes do bloco no próximo período. Mais do que os candidatos propostos pelos diferentes grupos políticos, disputam o comando da CE, o braço executivo da União Europeia, os governos europeus ; e, em especial, os da Alemanha e da França, que compartilham informalmente o comando político-econômico do bloco continental mais bem-sucedido.

Por duas ou três décadas, centro-direita e centro-esquerda ; com diferentes expresões ; dominaram o Parlamento Europeu da mesma maneira como prevaleceram no comando político dos principais países que formam a UE. Até quatro anos atrás, quando elegeram para presidir a CE o ex-premiê de Luxemburgo Jean-Claude Juncker, os sócios tinham pela frente uma escolha relativamente fácil. O Partido Popular Europeu (PPE, centro-direita) tinha, claramente, a maior bancada do Legislativo continental. Os socialistas e social-democratas, em segundo lugar, dispunham de suficientes cadeiras para compor com o PPE uma sólida maioria de centro, refletida na composição da CE.

As eleições do fim de maio mudaram a situação em Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu, com impacto imediato sobre a dança das cadeiras em Bruxelas, que abriga o complexo-sede da UE. Populares e social-democratas já não somam a maioria no parlamento continental. A próxima composição da CE, a ser empossada a partir de novembro, terá de incluir ecologistas e liberais, as duas forças que se saíram vitoriosas nas urnas há quatro semanas.

Verdes

;Está claro que os verdes terão um papel muito importante na definição das políticas europeias;, analisa Carmino Mortera-Martínez, do Centro Europeu para as Reformas. Com 74 deputados, entre os mais de 700 que compõem o Europarlamento, eles não estão na posição de emplacar um candidato, mas podem ser essenciais para a eleição de um, venha ele do campo direitista ou da social-democracia.

Nas últimas duas eleições para o Parlamento Europeu, os diferentes grupos políticos do continente foram desafiados a apresentar um spitzenkandidat (;candidato principal;, em alemão). Como é o costume no parlamentarismo alemão, esse indicado era o nome, apresentado aos eleitores, para comandar o governo no caso de vitória de seu partido.

O sistema esbarrou, porém, nas rivalidades políticas reais. Manfred Weber, alemão, siptzenkandidat do PPE, seria naturalmente o candidato a assumir o comando da CE, caso o bloco seguisse o modus operandi do sistema parlamentarista alemão. O problema, no caso, é que a escolha do presidente do Executivo europeu inclui outros critérios. O nome é proposto ao Parlamento Europeu pelos chefes de Estado e de governo, reunidos em conselho, mas é exigido o apoio de 21 dos 28 governos que compõem o bloco. Em seguida, é exigido o apoio da maioria dos eurodeputados.

Weber, que seria candidato natural a presidir a CE pelo resultado das urnas, esbarrou de saída na resistência de um dos dois governantes que dominam a UE. O presidente francês, Emmanuel Macron, gostaria de colocar no comando, em Bruxelas, o ex-chanceler Michel Barnier, que negociou o Brexit com o Reino Unido nos últimos dois anos. Contra ele, porém, pesa a resistência da outra força fundamental, a Alemanha, da chanceler (chefe de governo) Angela Merkel. Embora debilitada, ela deixou claro que, caso não prevaleça Weber, o seu candidato, o próximo presidente da CE terá de ser alguém muito bem relacionado com Berlim. (SQ)

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