Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 01/07/2019 00:00
O sonho real

Lembro-me com certa clareza do dia em que vi pela primeira vez a inédita cédula de dois reais. A tartaruga marinha navegava pela nota azul e poder tocá-la parecia com ganhar na loteria. Desbancou o pobre beija-flor que estampava a extinta nota de um real, substituída pela robusta moeda de borda dourada, contraponto àquela minúscula de um centavo.

E você, caro leitor, lembra-se que houve enquete para decidir qual animal da nossa fauna estamparia a nota de 20 reais a ser lançada em 2002? Meu voto foi para o lobo-guará, mas venceu o mico-leão-dourado, símbolo da preservação da biodiversidade, que hoje empresta seus tons amarelados à cédula que completará a maioridade no próximo ano.

A adoção da nova moeda, em 1994, representou um marco para o país, como mostra a série de reportagens publicada pelo Correio. Ganhou até uma segunda família, em 2010, com mais elementos de segurança e marcas para garantir acessibilidade a deficientes visuais.

Os textos publicados ontem, de Cláudia Dianni, Simone Kafruni e Vicente Nunes, mostram como os tons e as nuances da moeda nacional são insuficientes para ilustrar a realidade do país. A estabilidade que o plano econômico de 25 anos atrás concedeu à população não se converteu ainda numa base sólida para que a entrada e a sobrevivência digna dos brasileiros no século 21 fossem asseguradas.

A constatação do entrevistado
Edmar Bacha, um dos idealizadores do Plano Real, é tão certeira quanto aterradora: ;O Brasil não é para principiantes, nem para profissionais;. Para quem é este país, então? Que resposta podemos dar ao nordestino que conseguiu comprar um celular, mas não recebe água tratada em casa?

Sem o crescimento econômico aventado em discussões acaloradas sobre as propostas de reforma que tramitam no Congresso Nacional, certamente a resposta levará muito tempo para chegar. Mas é na essência do nosso povo também que ela precisa ser garimpada.

Não cabem nas cifras as complexidades do que é ser brasileiro. A diversidade, a poesia, o sofrimento vão além do que traçam as projeções. Reconhecê-las é o primeiro passo para se evitar cair na mesma armadilha, a de que encontraremos uma solução mágica ou de que seremos salvos por super-heróis.




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