Crescimento depende de agenda de reformas

Crescimento depende de agenda de reformas

Sem abertura comercial, mudanças previdenciárias e tributárias e desburocratização da economia, o sucesso do Plano Real será sempre limitado, e conquistas estarão em risco, dizem economistas presentes ao Correio Debate: 25 anos do real

» ALESSANDRA AZEVEDO » CLÁUDIA DIANNI » SIMONE KAFRUNI » BEATRIZ ROSCOE*
postado em 02/07/2019 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Superada com o Plano Real, a hiperinflação não tira o sono dos brasileiros desde 1994. Mas, mesmo com os inegáveis progressos observados nos últimos 25 anos, o sinal de alerta continua aceso para problemas estruturais que, até hoje, não foram resolvidos. Apesar de ter sido o primeiro passo para tirar o Brasil da rota do caos, a estabilização da moeda não foi suficiente para garantir um crescimento econômico acima de 2,3% ao ano, em média, nas últimas duas décadas. Enquanto o país não resolver as pendências, as conquistas estarão em risco, alertam economistas que participaram, ontem, do Correio Debate: 25 anos do real, no auditório do jornal.

Sem abertura comercial, reformas da Previdência e tributária e desburocratização da economia, o sucesso do plano será sempre limitado. O caminho para o crescimento sustentável envolve, inevitavelmente, a priorização de uma agenda de reformas, ;para dar mais produtividade ao Brasil;, afirmou o economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real. O ;grande teste; da estabilidade monetária, segundo ele, vai acontecer quando o Brasil voltar a crescer ; ;e de forma acelerada;, reforçou.

Um dos principais desafios é combater o deficit público, tarefa que Arida definiu como ;uma batalha constante;. Ex-presidente do Banco Central e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ele acredita que essa superação faz parte do ;capítulo dois; do plano, que ainda está em andamento. Ao contrário da implementação, a segunda fase não é ;uma história gloriosa, extraordinária;. É, nas palavras dele, ;uma história de sustentação e de boas práticas econômicas;.

;Ao contrário do que muita gente pensa, nosso maior problema não é falta de demanda ou que a política fiscal está contracionista. Nosso problema aqui é criar clima propício, mais segurança jurídica, boa reforma tributária. Todo país emergente que cresce é de economia aberta;, lembrou Arida. A receita não é nova. Para que o país tenha sucesso na segunda fase, ;tem de cortar gasto e lutar por mais eficiência;. ;Não tem solução milagrosa para nada. É um processo;, acrescentou.

O economista-chefe do banco Votorantim, Roberto Padovani, que também participou do seminário, afirmou que o Brasil vive um terceiro capítulo. ;A gente passou por um momento de enfrentar a cultura inflacionária do país, o Plano Real conseguiu fazer isso. Passamos por um segundo momento, em que a estabilização da economia permitiu que uma agenda de reformas caminhasse. E eu acho que, neste momento, estamos tentando completar essa agenda de reformas;, comentou.

Além de vencer o passado inflacionário, o Plano Real superou também o futuro incerto ao criar um ambiente propício para criar ferramentas de gestão da economia que são aplicadas até hoje, afirmou Padovani. ;O Plano Real venceu um ambiente que era institucionalmente muito frágil e transformou a história brasileira;, ressaltou. Quando a nova moeda começou a circular, deixou para trás uma trajetória inflacionária alta de 80 anos. ;Reduzimos a inflação de 5.000%, em junho de 1994, para 2%, em pouco mais de quatro anos. Algo espetacular;, disse o economista.

Padovani lembrou que o Plano Real abriu o caminho para instrumentos econômicos, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, o regime cambial flutuante, o sistema de metas de inflação. Agora, ele acredita que a reforma da Previdência será aprovada pelo ;medo social de ruptura, como havia quando foi feito o Plano Real;, apesar das resistências políticas. Na opinião dele, a reforma tem o potencial de atrair investimentos e ;permitir um choque na produtividade da economia;.

Obstáculos

O economista Claudio Adilson Gonçalez, da MCM Consultores Associados, afirmou que há um obstáculo político. Para ele, o Brasil não sairá tão cedo do atoleiro se o governo continuar com a teimosia de atrapalhar o Congresso na aprovação das reformas e com a fixação em assuntos poucos relevantes, conforme alertou. O risco do regresso de inflação alta está sempre presente, destacou. ;Não se pode brincar com isso. As reformas e o ajuste fiscal são urgentes para garantir a estabilidade do país, a maior conquista do Plano Real;, disse no seminário.

Para o economista, a agenda de reformas estruturais é extensa e sofre grande resistência política. ;Além disso, o PIB (Produto Interno Bruto) efetivo, comparado com o que se poderia ter em situações normais, tem um hiato de 6%, ou seja, está 6% abaixo do que poderia ser;, afirmou. Melhorar o ambiente do país poderia passar por medidas de estímulo de curto prazo, segundo Gonçalez. ;A começar pela queda na Selic;, sugeriu.

Ele também frisou que a produtividade total do país mergulhou a partir de 2013 e agora está negativa. ;A média dos últimos três anos, computado 2019, é de -35%. Isso rouba crescimento que decorreria das horas trabalhadas e dos investimentos na ampliação da produção;, disse. A atual crise foi creditada, pelo especialista, a investimentos equivocados nos governos petistas, ao sistema tributário ineficiente, à infraestrutura precária, à presença excessiva do Estado na economia, ao baixo nível de qualificação da força de trabalho e, sobretudo, ao fato de o Brasil ser um país muito fechado.

*Estagiária sob supervisão de Cida Barbosa

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