O grande risco que corremos

O grande risco que corremos

"Os governos passam, mas alguns deixam cicatrizes que o tempo demora muito a curar. Algumas não se curam nunca!

Roberto Brant
postado em 06/08/2019 00:00
Sob a vertigem dos acontecimentos e não acontecimentos que invadem, pelas mídias, nossa vida cotidiana, é fácil perdermos a visão de conjunto, a que nos permite compreender, ou pelo menos intuir, a verdadeira História que estamos vivendo. Nosso passado e as nossas experiências são hoje de pouca valia para entendermos o presente e sondar o futuro. Com a atual velocidade das mudanças, as incertezas, que sempre nublaram a vida das sociedades, tornaram-se muito maiores e temos muito menos controle sobre o que pode nos acontecer.

Essa falta de controle sobre nosso destino já deveria ser suficiente para que a sociedade procurasse agir com muita prudência e humildade, abstendo-se de lançar-se em aventuras políticas que só ampliam as incertezas. Se os riscos da imprevisibilidade sobre o futuro fossem percebidos como uma ameaça real à própria integridade da nação, certamente as pessoas se moveriam em direção a uma maior unidade e a uma maior disposição para a compreensão e a cooperação. Essa percepção, no entanto, não existe para a maioria.

Em todo o mundo estamos presenciando uma redução do crescimento econômico, um grande aumento das desigualdades e a incapacidade dos governos de servirem a todos os seus cidadãos. Os minguados frutos do crescimento das últimas décadas foram quase exclusivamente para a parcela mínima dos muito ricos, mantendo-se quase toda a população num estado de estagnação ou de empobrecimento. Como hoje quase tudo é transparente, as maiorias sociais tornaram-se descrentes das instituições que produzem a injustiça ou, pelo menos, não são capazes de evitá-la. O resultado da desilusão é a ascensão, pelas próprias vias da democracia, de governos autoritários e sectários, ou até mesmo de líderes absurdos como Donald Trump ou Boris Johnson, todos frutos do desespero e não da esperança.
Se isso se passa no mundo, no Brasil, as coisas andam muito piores. Nossa economia não cresce pouco. Ela não cresce nada. A renda por habitante que tínhamos em 2012 diminuiu e só voltará ao mesmo nível a partir de 2020, se tudo correr bem. Dez anos perdidos, e com eles vidas que se frustraram, famílias que se desorganizaram, destinos que se perderam. E tudo isso, obra de nós mesmos. Temos todas as riquezas possíveis, mas seus benefícios foram capturados por uma parcela mínima da população: as corporações do serviço público, que fizeram do Estado um fim em si mesmo, e uns poucos grupos de interesses que se organizam em redor do Estado, para desfrutar de seus recursos, suas leis e seu poder.

Nossa carga de impostos atingiu, no último, ano 35% de toda a renda nacional e 80% de tudo isso é gasto com salários de funcionários públicos, aposentadorias e pensões. Não temos infraestrutura, não temos boa educação, não temos boa assistência de saúde, não temos sequer segurança. Se não bastasse isso, mais de 25 milhões de brasileiros não têm emprego e não há crescimento econômico no horizonte.

É muito difícil que tudo permaneça assim, sem que conflitos e distúrbios passem a ameaçar a nossa precária paz social. Os problemas que temos pela frente são desafios espetaculares que exigiriam, no mínimo, uma grande mobilização da sociedade, liderada por um governo que pregasse a unidade, a fraternidade e a tolerância, para nos guiar para um destino comum. Um governo que se orgulhasse de nossa diversidade e compreendesse com serenidade as vicissitudes de nossa história.

O que estamos vendo não é nada disso. Vemos um desejo inconsequente de nos dividir, de vingar a história, de fazer uma parte prevalecer sobre o todo e de combater a diversidade. Já vivemos grandes dramas políticos, vários momentos de ditadura e autoritarismo, outros momentos de mediocridade e de incompetência, mas hoje o sentimento que tenho é que a nossa própria ideia de nação está sob risco.

Os governos passam, mas alguns deixam cicatrizes que o tempo demora muito a curar. Algumas não se curam nunca! A história nos lembra que há nações e sociedades que se perdem para sempre!

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