Mais três vítimas da covardia

Mais três vítimas da covardia

Na mesma manhã, um homem com problemas psiquiátricos matou a mãe em casa, em Taguatinga, e um marido atacou a facadas a mulher e uma colega de trabalho, em Samambaia. Casos de feminicídios cresceram 7,6% no primeiro semestre

Walder Galvão
postado em 21/08/2019 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Os casos de violência contra as mulheres seguem em alta no Distrito Federal. Apenas na manhã de ontem, um homem de 37 anos matou a mãe, de 68, em Taguatinga, e duas mulheres foram esfaqueadas no trabalho, em Samambaia, pelo companheiro de uma delas. Levantamento da Secretaria de Segurança Pública mostra que o número de feminicídios subiu 7,6% no primeiro semestre de 2019, comparado a igual período de 2018, passando de 13 para 14 registros. As notificações de tentativas de feminicídio também aumentaram no mesmo intervalo, de 31 para 55, um crescimento de 77,4%.

O primeiro caso aconteceu às 10h30. Diagnosticado com esquizofrenia e transtornos de ansiedade desde a adolescência, o acusado de matar a mãe passou por diversas internações e fugas no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), unidade psiquiátrica do Distrito Federal. Em 8 de agosto, ele escapou do lugar e voltou a morar com a vítima em Taguatinga, como costumava fazer. Entretanto, após um surto, ele agrediu a idosa até a morte dentro de casa. O caso é investigado pela 12; Delegacia de Polícia (Taguatinga Centro) como feminicídio.

Após o crime, o suspeito saiu de casa e foi à residência de familiares, na mesma rua onde mora, contar o que havia acontecido. ;Ele parou no portão e disse que tinha matado a mãe com uma picareta. Primeiro, eu não acreditei devido aos problemas dele. Porém, quando o vi coberto de sangue, corri e chamei policiais militares que passavam na rua;, contou um parente, que preferiu não se identificar. No imóvel da família, havia sangue espalhado pelo chão da sala, e a vítima estava com diversos ferimentos na cabeça.

Segundo informações da PM, o investigado foi levado à delegacia. Ele chegou ensanguentado e cantando o Hino Nacional em voz alta. O delegado à frente do caso, Josué Ribeiro, ressaltou que o homem é conhecido da polícia pelas diversas tentativas de fuga do HSVP. ;Além de sempre tentar deixar o hospital, ele vinha várias vezes à delegacia registrar ocorrências, mas não sabia sequer explicar o que tinha acontecido. O homem não resistiu à prisão, foi ouvido e encaminhado à carceragem;, explicou o investigador.

Apesar de o acusado ter informado que usou uma picareta para matar a vítima, a arma do crime não foi localizada. ;A idosa estava com diversos ferimentos e perfurações na cabeça. Ela também estava coberta com um pano. Ainda não temos como dizer que instrumento foi usado para matá-la, mas os peritos estão trabalhando nisso;, informou Josué. O delegado reforçou que não há informações sobre a motivação do crime.

O investigador destacou que o inquérito será finalizado como feminicídio. ;O ato de um filho agredindo uma mãe idosa pode ter esse qualificador. Isso acontece porque ele se aproveita da vulnerabilidade dela por conta do gênero;, explicou. Ontem, o suspeito foi encaminhado à carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE). Nos próximos dias, ele passará por avaliação médica, que decidirá se ele vai para ala psiquiátrica da Penitenciária Feminina do DF, a Colmeia.

Socorro
Nascida na Bahia, a vítima chegou ao Distrito Federal há mais de 30 anos. Mãe de dois filhos, ela vivia em Taguatinga havia 20 anos. O marido dela, de 76 anos, morreu no ano passado devido a complicações cardíacas. Ele vendia chaveiros e cortadores de unha no centro de Ceilândia e sustentava a família. ;Ela era muito baixinha, incapaz de fazer mal a qualquer ser vivo. Gostava de conversar e andar pela rua. Sempre nos visitava para jogar papo fora;, contou um vizinho.

Após o crime, a vizinhança se reuniu em frente à casa da família para prestar apoio ao irmão do acusado e filho da vítima, que não quis se identificar. Ao Correio, ele contou que os problemas do irmão começaram na adolescência. ;Ele queimava colchões e batia nos meus pais. Sempre tentávamos interná-lo, mas ele fugia e voltava para casa. Pelo menos três vezes por semana, a Polícia Militar ou o Samu precisavam vir socorrer a minha mãe. Estava tentando tirá-la daqui, mas não deu tempo;, lamentou.

Segundo ele, o irmão costumava ter surtos dentro de casa e quebrar tudo. ;O que me deixa mais triste é que não conseguimos ajuda do Estado para evitar que essa situação acontecesse. Tínhamos várias ocorrências registradas na polícia de desaparecimento dele. Porém, ele sempre voltava para casa. Afinal, ela era mãe dele;, desabafou.



Em alta
Aumento de casos

Crime 2018 2019 Variação

Feminicídio 13 14 7,6%
Tentativa de feminicídio 31 55 77,4%
Denúncia de violência doméstica 7.618 7.820 2,6%

* Os dados são referentes ao primeiro semestre de cada ano.

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