Quando a comida faz mal

Quando a comida faz mal

O Brasil é líder mundial em sedentarismo e tem índices alarmantes de aumento da obesidade, segundo o Ministério da Saúde. A simples adoção de um estilo de vida mais saudável pode evitar doenças como hipertensão e diabetes

postado em 21/08/2019 00:00


Com índices alarmantes de aumento da obesidade, sobretudo entre crianças, o Brasil está prestes a conquistar a incômoda liderança como o país mais sedentário do mundo em estudo que ainda será divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O alerta é do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao chamar a atenção para a necessidade de a população brasileira buscar o equilíbrio entre gasto calórico e ingestão de alimentos.

Ao abrir o Correio Debate Desafios da Alimentação Saudável, Mandetta ressalta que a obesidade avança de forma preocupante no país. Segundo dados do Ministério da Saúde, 12,9% das crianças entre 5 e 9 anos são obesas e 17% das menores de 5 anos estão com excesso de peso. ;Isso provoca, no longo prazo, aumento de diabetes, hipertensão, acidentes cardiovasculares, doenças oriundas do padrão alimentar;, sentencia.

O aumento da obesidade, avisa o ministro, não é um problema só no Brasil. ;O fenômeno é global;, afirma. México e Estados Unidos têm índices ainda mais alarmantes, assim como na Europa. ;Países africanos que não tinham nada de obesidade experimentam aumento significativo de peso da população. A China, após a migração do campo para a cidade, está fazendo investimentos enormes por conta da preocupação com o estilo de vida;, afirma.

Fórmula

Mandetta ressalta que a fórmula para reduzir o problema da obesidade é simples. ;Usar o tempo de maneira útil, saudável e com qualidade de vida está embasado em dois pilares: alimentação e atividade física. Desde sempre, a humanidade vem se utilizando do que a natureza lhe oferta;, destaca. No entanto, pontua, quando o equilíbrio entre ingestão e o gasto é desfeito, são percebidas inúmeras situações e problemas de saúde. ;As pessoas consomem, cada vez mais, alimentação industrializada com excesso de açúcar e de sódio. Somado a isso, temos o tempo medido por hora-tela (que representa o sedentarismo em frente ao computador) aumentando significativamente.;

Apesar de ter alta incidência solar e grande parte da população estar próxima da costa, o que deveria propiciar a prática de exercícios, o Brasil caminha para a liderança em sedentarismo, revela Mandetta. ;As pessoas trabalham sentadas, vão de carro para o escritório, chegam em casa e vão para o computador. Estudo da OMS, que ainda deve sair, vai mostrar que o Brasil conquistou essa posição incômoda;, antecipa. ;Somos mais sedentários do que países que passam meses sob neve, que tiveram que criar verdadeiros bunkers indoors e desenvolver esportes de inverno;, compara.

O ministro lembra hábitos de consumo de gerações passadas para mostrar que as mudanças recentes levaram à evolução da obesidade no país. ;O Brasil vem do arroz com feijão, do carboidrato com proteína vegetal. Tem uma terra extremamente generosa com frutas e verduras e, nessa base, atravessamos 500 anos de história com bom ponto de equilíbrio. Hoje há uma ruptura;, alerta.

Numa volta ao passado, Mandetta conta um pouco da própria história para ilustrar as mudanças de hábitos. ;Nasci em Campo Grande, na minha infância, a cidade devia ter 200 mil habitantes. A porta da casa era aberta, com bicicletas no jardim. As famílias dos vizinhos tinham vários filhos, a minha mãe teve cinco. Então, era uma verdadeira praça de atividades físicas com todas brincadeiras típicas de uma infância do interior do Brasil, todas envolvendo corrida, saltos, pulos, árvore, futebol. Toda uma socialização em torno da atividade física;, recorda.

Perfil

Além da valorização do esporte no colégio e na rua, a seleção de alimentos era mais criteriosa, diz o ministro. ;Minha mãe era dona de casa, selecionava os alimentos da família. Nosso almoço era feito dentro de casa, o pão era caseiro, o jantar feito em casa. Meu avô era fabricante do Guaraná Tupi, mas só tomávamos o refrigerante nos aniversários ou dias extremamente selecionados;, conta. O perfil das gerações passadas, portanto, era de atividade física e base alimentar saudável.

Quando o país entra na década de 1980, recorda Mandetta, as pessoas se tornam mais dependentes dos automóveis, há popularização dos alimentos industrializados. ;O que antes era uma exceção, uma criança obesa, agora é uma constelação;, diz. Paralelamente ao aumento de peso, o país experimenta expansão das doenças ligadas aos padrões alimentares, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. ;Há uma correlação, que precisamos combater. Por isso, o debate sobre alimentação saudável é fundamental;, acrescenta.

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