O otimismo, o pessimismo e a realidade

O otimismo, o pessimismo e a realidade

ORLANDO THOMÉ CORDEIRO Consultor em estratégia
postado em 23/08/2019 00:00


No último Natal, dois irmãos, um pessimista e outro otimista, ganharam presentes de seus pais. O primeiro, uma bicicleta moderna, de alumínio e 21 marchas. O segundo, uma lata repleta de esterco. O pessimista, assim que viu seu presente, começou a gritar ;que droga, quando sair com essa bicicleta, tá na cara que vão me assaltar. Que desgraça, que desgraça, que desgraça!”. Nisso, ele vê o irmão passando pela sala com a lata na mão e pergunta ansiosamente ;E você, o que ganhou, o que ganhou?;. Sem interromper seu passo, o irmão responde eufórico ;Eu ganhei um cavalo, você viu ele por aí?;.

Todos nós nos vimos diante de situações nas quais somos colocados à prova sobre a forma de encará-las e superá-las. E sempre há aquelas pessoas que, quando perguntadas, afirmam não serem nem uma coisa nem outra, definindo-se como realistas, talvez recorrendo a uma das famosas frases do saudoso Ariano Suassuna: ;O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso;. Vejamos o que as últimas pesquisas de índice de confiança têm apontado.

Em dezembro de 2018, segundo o Datafolha, 65% dos brasileiros acreditavam que a economia melhoraria a partir de 2019. Em abril deste ano, o índice caiu para 50% e em julho chegou a 45%. Por outro lado, chama a atenção na última pesquisa que, apesar da queda do otimismo em relação ao país, 55% disseram acreditar que a própria situação vai melhorar. A mesma contradição se revela quanto ao desemprego, com a maioria indicando expectativa de piora para o país ao mesmo tempo em que espera continuar empregado. Por fim, dois em cada três brasileiros adultos (68%) consideram o Brasil um lugar ótimo ou bom para se viver, índice mais alto desde dezembro de 2014.

Alguns podem dizer que é um sinal de autoengano ou mesmo um alto grau de resiliência, mas a questão relevante a ser tratada é procurar identificar o impacto desses indicadores comportamentais no dia a dia das empresas e das administrações públicas. São eles úteis para a definição de diretrizes estratégicas? Qual o grau de influência no planejamento e nas ações dele decorrentes? Afinal, empresas, governos e instituições são formados essencialmente por gente, verdadeiros organismos vivos que estão em busca da sobrevivência, da longevidade e do sucesso. Portanto, abordar tal questão está longe de ser uma mera digressão. E trazê-la para o universo das organizações pode ter um peso significativo na compreensão sobre parte das razões que levam ao êxito ou ao fracasso.

Imaginemos que uma empresa resolve lançar um produto novo no mercado. Para isso, faz pesquisas de demanda e, a partir daí, decide investir no desenvolvimento e na posterior produção. Tudo pronto para o lançamento, em um ambiente interno marcado pela euforia decorrente da certeza do sucesso, mas eis que a tal sensação de pessimismo toma conta do conjunto de potenciais consumidores e o que se segue é um fracasso, com o produto encalhado, equipes tomadas pelo sentimento de derrota e a organização iniciando um período de inferno astral, em que a identificação de culpados é uma das primeiras medidas.

Tomemos agora o exemplo de um governante que, recém-eleito, prepara uma série de medidas a serem implementadas durante seu mandato. O cenário logo após a vitória é de enorme empolgação com as inúmeras oportunidades que se avizinham no futuro próximo. Ora bolas, o que pode dar errado? Nada, diriam os otimistas de plantão. Porém, a vida pode pregar peças. E aquela euforia que contaminou o ambiente interno e externo pode ser substituída por um cenário marcado pelo pessimismo ou desesperança.

Tomando-se os dois exemplos acima, fica a pergunta: como lidar com essas mudanças de percepção de mercados formados, no primeiro caso, por consumidores de produtos e serviços, e, no segundo caso, por cidadãos e cidadãs? Minha convicção é que confiança é o fator chave para o sucesso e parte dela decorre da coerência entre o que foi prometido pela empresa, na fase de pré-lançamento de um produto, ou pelo governante, na sua campanha.

É o dilema vivido atualmente pelo governo federal quanto à lei de abuso de autoridade. Vai vetar os artigos que entram em choque com seu discurso na campanha, preservando a coerência e o apoio de boa parte de seu eleitorado, ou vai sancionar para não entrar em choque com o Congresso Nacional em nome da governabilidade? Qualquer que seja a decisão tomada, certamente será captada pelas próximas pesquisas que apontam os índices de confiança da população.






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