Livro de Laurentino Gomes investiga 250 anos de dor e sofrimento

Livro de Laurentino Gomes investiga 250 anos de dor e sofrimento

Após trilogia de sucesso 1808, 1822 e 1889, escritor Laurentino Gomes se debruça sobre a escravidão em nova sequência de três volumes. Ao Correio, autor explica motivo pelo qual resolveu abordar o tema

Adriana Izel
postado em 01/09/2019 00:00
 (foto: Vilma Slomp/Divulgação)
(foto: Vilma Slomp/Divulgação)
Foi durante o processo de pesquisa e escrita da trilogia iniciada com 1808 que o premiado escritor paranaense Laurentino Gomes teve a ideia de produzir uma nova sequência, que começa com o livro Escravidão: Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, que chegou, no último dia 23, às livrarias brasileiras e terá lançamento oficial em Brasília em 20 de outubro, às 19h30, na Livraria Cultura, do Iguatemi Shopping. ;Essa nova trilogia é uma consequência direta e inevitável da anterior. Ela tratava de período muito importante para entender a construção do Brasil de hoje, da Independência e da Proclamação da República. Ou seja, ali estavam as nossas características do ponto de vista institucional, legal, burocrático e administrativo, que se mantêm até hoje. Mas, ao pesquisar e ler esses três primeiros livros, me dei conta que, para entender o Brasil de hoje, tinha que fazer um mergulho mais profundo para ir realmente a alguns pilares da formação da nossa identidade nacional, da sociedade brasileira. Quando você faz isso, a escravidão emerge realmente como o assunto mais importante da história do Brasil;, afirma em entrevista ao Correio.

O Brasil foi o maior território escravista do Hemisfério Ocidental. As terras tupiniquins receberam cinco milhões de africanos cativos, dos 12,5 milhões embarcados da África para a América. O país também foi a nação que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro, sendo a última no continente a abolir oficialmente o cativeiro apenas em 1888. Essa história e herança escravocrata é parte essencial para entender as estatísticas brasileiras, que, Laurentino, aponta logo na introdução do primeiro volume: ;54% da população brasileira é negra e parda; o índice de analfabetismo entre os negros em 2016 era 9,9%, mais do que o dobro do índice entre os brancos; um homem negro tem oito vezes mais chances de ser vítima de homicídio no Brasil; nas quinhentas maiores empresas que operam no país, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência são ocupados por negros;.

Em Escravidão ; Volume 1, o jornalista cobre os 250 anos entre o início das incursões e capturas de escravos pelos portugueses na África, com o primeiro leilão de cativos em 1444 em Algarve (Portugal), até o fim do século 17, com a morte de Zumbi dos Palmares em 1695. O tema é destrinchado em ensaios e reportagens de campos em um texto que contou com seis anos de dedicação total do autor com a leitura de 200 livros sobre o tema e a visitas a cidades na América, na África ; por onde o escritor passou cinco vezes ; e na Europa. ;Tem uma bibliografia muito importante hoje. É o assunto mais estudado na história do Brasil, mas também fora. Nos Estados Unidos há muitas fontes sobre a própria escravidão brasileira e na África. Depois de passar pela bibliografia, botei o pé na estrada para fazer reportagem. Gosto de ir aos locais em que as coisas aconteceram, entrevistar as pessoas, observar a paisagem e o que mudou nesses últimos séculos, ou o que não mudou, como é que o Brasil trata esse tema;, conta.

Laurentino visitou engenhos, museus e pessoas que tiveram a vida impactada diretamente pela escravidão. ;O Brasil, que foi o maior território escravista do Hemisfério Ocidental, não tem um único grande museu nacional da escravidão, ao contrário dos Estados Unidos, de Angola, da Inglaterra, todos eles têm um bom museu da escravidão. É importante a gente ir e observar até para tornar essa história mais fresca, mais assimilável e mais atualizada para o leitor de hoje. No livro, conto muitos episódios atuais. Acho que dá um sabor da reportagem, e que torna essa história densa, sofrida, pesada, um pouco mais fácil de entender e de ler para o leitor de hoje;, completa o autor.

Na obra, Laurentino Gomes ainda aborda outros períodos da humanidade em que se praticava a escravidão, como na Grécia antiga e no Império Romano. Tudo isso para mostrar como o trabalho escravo na América foi diferente, subjugando o povo africano com o nascimento de uma ideologia racista ; com base em fundamentos religiosos e da filosofia iluminista ; e um modo de trabalho intensivo, em que os negros foram colocados como mão de obra cativa para a indústria no Brasil com o objetivo de comércio. A escravização indígena, que depois foi substituída pela africana, também é assunto do livro.



Escravidão: Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares ; Volume 1
De Laurentino Gomes. Revisão e anotações: Alberto da Costa e Silva. Globo Livros, 479 páginas. Preço médio: R$ 49,90.




Entrevista / Laurentino Gomes


O que motivou o senhor a escrever uma trilogia agora sobre a escravidão?
O ciclo do pau-brasil, de açúcar, do ouro, do diamante, do café, de algodão, do tabaco, tudo isso era mantido e explorado com mão de obra africana, e diria que não é só uma questão econômica. A própria constituição do que somos hoje, essa sociedade com muitas cores, culturas, peculiaridades na música, na dança, na culinária e no jeito de se comportar, também na capacidade de resistência, de adaptação, de resiliência. Tudo isso é raiz africana. E, por fim, existe uma terceira dimensão que é o legado da escravidão, que acho que está muito forte especialmente hoje na forma de preconceito, de racismo, de uma forma muito explícita nas redes sociais, nos discursos políticos e também nas estatísticas, que cito logo na introdução. Tem um abismo de oportunidades, de direitos, de privilégios, de benefícios entre a população de origem europeia e a de origem africana. Realmente, as estatísticas mostram que o legado da escravidão entre nós continua vivo, é uma ferida aberta. Aí cheguei à conclusão que realmente para tentar explicar o Brasil precisava escrever sobre a escravidão, não adiantava só falar sobre a monarquia, o Império, a República, precisava dar um mergulho mais profundo e foi isso que eu tentei fazer com essa trilogia.



O senhor foi cinco vezes à África para fazer o livro. Como avalia que a escravidão é vista lá?
A diferença está no olhar da escravidão. A escravidão na África, a história lá hoje não é uma ferida aberta, como é para nós brasileiros, ou como nos Estados Unidos, por exemplo, em funç

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