Cidadão do mundo

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Filho de sírio, o ator Mouhamed Harfouch representa muito bem a miscigenação que é base da novela Órfãos da terra

Por Vinicius Nader
postado em 01/09/2019 00:00
 (foto: Rodrigo Lopes/Divulgação
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(foto: Rodrigo Lopes/Divulgação )
;Um personagem não se encerra em sua origem, somos todos brasileiros e nem por isso somos iguais.; Assim Mouhamed Harfouch defende que a origem árabe é apenas um traço em comum entre vários personagens da carreira dele. Atualmente no ar como Ali Al Aud, de Órfãos da terra, Mouhamed Harfouch completa: ;O fato de ter uma origem parecida ou ter um sotaque não delimita o personagem. Pelo contrário, o exercício até se torna mais rico;.

Na novela das 18h, Ali se apaixona pela judia Sara (Verônica Debom), o que levou Mouhamed a receber muitos relatos de histórias proibidas, como essa. Mas o ator acredita na força do amor: ;Acredito no amor como uma força transformadora capaz de promover grandes revoluções;.
Na entrevista a seguir, Mouhamed Harfouch fala sobre Órfãos da terra, tolerância e imigração. Confira!

Entrevista / Mouhamed Harfouch

Você já interpretou vários personagens de ascendência árabe na tevê. Como fazer para que um não repita o outro?
Cada um tem uma verdade, cada um tem uma história interessante a ser contada. Um personagem não se encerra em sua origem, somos todos brasileiros e nem por isso somos iguais. O fato de ter uma origem parecida ou ter um sotaque não delimita o personagem. Pelo contrário, o exercício até se torna mais rico.

Órfãos da terra traz à luz um tema muito importante: a tolerância com os imigrantes. Sua família chegou a ter problemas com isso?
Meu pai, quando chegou, na década de 1970, passou muitas dificuldades, mas nunca sofreu preconceito. Pelo menos nenhum que o obstasse a lutar pelo seu espaço e construir sua vida. O Brasil nessa época era um país cheio de oportunidades, e quem tivesse vontade de trabalhar conseguiria. Meu pai tem um carinho enorme pelo Brasil, país que chama de seu também. Fala que nós não entendemos a dimensão da riqueza que este país possui.

O amor entre um árabe e uma judia até hoje é visto como tabu?
Aqui no Brasil nem tanto. Mas confesso que já recebi relatos de pessoas que passaram dificuldades como as do Ali na história.

Você é romântico? Acredita que o amor pode vencer barreiras como essa?
Sou romântico, sim. Acredito no amor como uma força transformadora capaz de promover grandes revoluções. Aliás, quando construí o Ali, fui mais pela construção verdadeira desse amor com frescor, com leveza, com a alegria do verdadeiro encontro do que pela problematização da sua origem. Sabia que, se o amor dessas personagens fosse verdadeiro, o público poderia comprar a história e entender que eles poderiam superar toda dificuldade. O mundo está carente de afeto, e nesses momentos em que crescem a intolerância, a beligerância, a aversão às diferenças constatamos que a única solução é um olhar mais empático, mais solidário, mais afetuoso. Para isso, é necessário amor ao próximo.

O público da televisão não está tão acostumado a vê-lo em comédias. É uma questão de preferência sua ou simplesmente não aconteceu?
Isso é muito curioso. Fui formado na comédia, foi o gênero que mais fiz na minha carreira no teatro e onde comecei na tevê. O árabe Hussein, de Pé na jaca, era muito divertido. Assim como o Farid, libanês em Cordel encantado. Mas depois acabei pegando uma série de papéis mais densos e que acabaram me distanciando do gênero. Mas a comédia é um lugar de conforto para mim. Adoro estar nela, mas não só nela. Gosto da comédia que vem da situação, do risível da condição humana. Acho que em todas as comédias há espaço também para a dor e suas verdades. É aí que pegamos o contrapé e puxamos o tapete do público, no bom sentido. Osmar Prado faz isso magistralmente. Não somos uma coisa só. Nunca.

Leia a íntegra da entrevista com Mouhamed Harfouch no blog Próximo Capítulo.


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