Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)
postado em 08/09/2019 00:00
O cronista e a deusa

A paixão de Rubem Braga por Tônia Carrero é uma história com lances dramáticos, melodramáticos e líricos. Marco Antonio de Carvalho reconstitui o romance com muitos detalhes na biografia O cigano fazendeiro do ar (Ed. Globo).

Certa ocasião, no Rio de Janeiro, rejeitado por Tônia, Braga teria ameaçado se jogar no mar. O gesto espetacular tinha poucas chances de ocorrer, pois, como observa Marco Antonio, Braga era bom nadador. Em vez de se atirar na água, ele permaneceu caminhando em frente ao apartamento da musa, premeditadamente, para ser visto. Ao avistá-lo, ela desceu, o buscou e o acolheu no apartamento em que morava.

Na verdade, Braga entrou em contato mais estreito com Tônia Carrero em 1947, quando ambos eram casados. Braga com Zora; e Tônia com o desenhista Carlos Thiré. Braga fora enviado como correspondente de O Globo e morava no apartamento onde morreu Marcel Proust. Tônia e Braga passaram a flanar por Paris com tanta frequência que exasperaram Carlos Thiré.

Carrero se rebelou, decidiu acabar com o casamento e passou a se encontrar com Braga em um pequeno hotel. Apesar da obsessão de Braga, Tônia desfez a relação por causa da instabilidade do amante: ;Você adora mulher de amigo!”, disse a atriz. E ele concordou: ;E eu vou me encantar com mulher de inimigo? Mulher de inimigo, eu nem posso ver!”

Em 1952, Braga publicou na Folha da Tarde crônica em que evoca o episódio de uma queda de Tônia Carrero que lhe teria provocado um arranhão no joelho, cantado em prosa e verso, sem identificar os personagens verdadeiros da cena: ;Então, a moça caiu e ralou o joelho esquerdo; estava com as pernas nuas. Ele a ergueu, fê-la sentar-se em um banco, tirou o lenço limpo, foi embebê-lo na água da pequena bica e limpou o ferimento. Sentiu prazer em fazer isso. No joelho moreno, havia a mancha vermelha. O sangue não fluía, mas estava ali, sob a pele rarefeita, e porejava sutilmente. Foi novamente embeber o lenço, mas não o passou sobre o ferimento, apenas o premiu de leve e o retirou. Estava com uma pequena mancha de sangue, tão leve que era apenas rosada;.

É com minúcia obsessiva que Braga passa a descrever o comportamento do joelho da musa nos mínimos movimentos, características físicas e peculiaridades. Andando, ele não podia ver o joelho da moça; levou-a para o terraço de um bar; não sentou a seu lado, mas defronte, afastando um pouco a cadeira, e só quando vieram os dois copos de suco de laranja e ele se curvou para beber é que olhou o joelho: ;Ela cruzava as pernas, o joelho ferido, com aquela mancha viva do mercuriocromo, parecia mais alto, quase sensacional, sobre o outro;.

Mas eis que uma intuição bate fulminante no cronista: ;A moça contara alguma coisa e ela mesma ria, e ele ficou um instante o imaginando ; o nariz dela se franzia um pouco no riso, e os olhos verdes, apertados, brilhavam, e os dentes eram pequenos e muito brancos na boca rubra ; imaginando que ela o acharia meio louco e talvez engraçado se ele dissesse o que estava pensando, uma coisa assim: ;Eu tenho uma grande amizade pelo seu joelho esquerdo;;.



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