Guerreiros da alegria

Guerreiros da alegria

Comandada pelo diretor Hugo Rodas, a orquestra de atores da Agrupação Teatral Amacaca (ATA) completa 10 anos e celebra a intensidade, a diversidade, a democracia e a arte

» Roberta Pinheiro
postado em 16/09/2019 00:00
 (foto: Sartoryi/Divulgação)
(foto: Sartoryi/Divulgação)



;Brasília precisa saber o que é um grupo e o que é ser um operário do teatro;, afirma o diretor uruguaio brasiliense Hugo Rodas. Cercado por sua orquestra de atores da Agrupação Teatral Amacaca (ATA), ele construiu uma família. ;Dessas famílias tipo commedia dell arte, que se une em torno do circo, da apresentação, da arte;, complementa o ator André Araújo. E, como toda grande família;- ao todo, são 17 integrantes ; há divergências e convergências. Ao mesmo tempo, é essa intensidade de convívio, de troca, de experimentações que torna o coletivo único, dentro e fora do palco.

Este ano, a ATA e Rodas celebram 10 anos de um trabalho que nasceu em meio as aulas de Técnicas Experimentais em Artes Cênicas, disciplina ofertada pela Universidade de Brasília (UnB) e que tinha o diretor como professor. Maestro de um coletivo heterogêneo, com diferentes gerações e experiências, Rodas também concretiza com essa formação um trabalho de mais de 40 anos. Um grupo musicante, que une exploração vocal, muscular, gestual, estudo de instrumentos musicais e ritmos.

Da mesma forma que, em 1977, a encenação de Os Saltimbancos pelo Pitú, grupo também dirigido por Rodas, marcou uma fase importante na cena artística brasiliense, a remontagem realizada pela ATA comprovou o que Brasília precisa saber: a potência e a identidade de um coletivo. Desde julho, quando estrearam no Centro Cultural Banco do Brasil , foram 27 espetáculos, em diferentes regiões do DF, e um público de 7 mil pessoas. ;Os Saltimbancos está colocando o grupo em outro patamar. A ATA ainda está se construindo. Talvez seja mais sólido com as individualidades, mas, como grupo, Os Saltimbancos colocou a gente em outra rota;, comenta o ator Iano Fazio.

A decisão de inserir no repertório da trupe o texto de Chico Buarque, contudo, não foi unânime. ;No começo, teve gente que não queria falar de Saltimbancos;, cutuca o diretor. ;Mas as épocas estão muito parecidas, a necessidade de abrir a boca para dizer algo, mesmo sendo uma peça infantil. São sentimentos humanos, políticos, simples e nada é melhor do que o simples;, acrescenta. A divergência dessa escolha é apenas uma dentro de um caldeirão de sentimentos, ideias, crenças e vivências de 17 pessoas diferentes.

;Esse convívio é intenso em todos os aspectos, porque já são 10 anos. A gente vive essa relação que já se torna bem familiar e nos alimenta muito. Nas adversidades, nos grandes desafios, na falta de criatividade, no cansaço extremo, nas vezes que a gente não quer estar aqui, isso acontece. Tudo isso, de alguma forma, alimenta e movimento o nosso trabalho;, comenta a atriz Juliana Drummond. Hoje, a ATA colhe os frutos de um trabalho árduo. ;Já tivemos momentos que não tínhamos projeto, não tínhamos apoio. É um desafio diário a manutenção da relação independente se tem ou não dinheiro, se tem ou não espaço. A gente inventa e une forças;, pontua Dani Neri.

Depois de 10 anos na estrada, a ATA passou por mudanças e renovações. Para Camila Guerra, foi preciso resistência para construir a unidade que o público aplaude nas apresentações. ;Um time é composto por várias pessoas. Não importa muito o que você sente pelo outro, mas o quanto está disposto a ajudar para atingir um resultado comum. Existe esse pensamento que construímos, não só de família, mas como se fossemos um time, uma orquestra;, comenta Fazio. ;Mas, na balada somos os inimigos do fim;, complementa aos risos Araújo.

Exercício de democracia

Os aprendizados do ;zoológico cármico sem grades;, como define a atriz Rosanna Viegas extrapolam os limites do palco e dos ensaios. ;A gente vive uma experiência louca de democracia dentro do grupo, pluralidade de pensamentos, lugares de fala, olhares. Ao mesmo tempo em que a gente dialoga bastante e tem algo que nos une profundamente, às vezes bate uma pauta muito simples para o grupo discordar, discutir. O que é comum na democracia, o que nos ensina algo de cidadania e empatia;, avalia Gabriela Correa. Ao descobrir como interagir no meio de algo tão heterogêneo, os membros da ATA praticam não só os ensinamentos teatrais de Hugo Rodas, mas colocam em prática a escuta. ;É um exercício político, democrático e transcendental;, finaliza Gabriela.

Para o diretor, a dificuldade é a mesma enfrentada nos casamentos e relacionamentos amorosos. Estar com a mesma pessoa de manhã até a noite; cozinhar, acordar, namorar. ;Sempre que você faz algo com alguém novo é como um grande descanso, porque você não tem conflito. Ao mesmo tempo, só esse tipo de união que é a que provocou o grupo e que permite que trabalhemos;, afirma. Por isso, Rodas se declara um monogâmico, porém infiel. O diretor e os próprios atores do grupo realizam trabalhos com outras pessoas, fazem residências, intercâmbios, mas permanecem unidos nessa grande orquestra de atores.

A união, para Rodas, vem do trabalho. O que os atores discordam e logo fazem cara feia. ;Não temos uma formação purista. Individualmente, somos formados por possibilidades cênicas diferentes. Junta os treze e vira uma conta exponencial surreal. O que é muito rico se você tem uma pessoa com a inteligência e o bom gosto do Hugo para amarrar tudo isso;, justifica Abaetê Queiroz. Além da direção que já tem sua assinatura, o uruguaio-brasiliense sabe extrair o potencial máximo de cada profissional. ;Como ele te provoca, dá as ferramentas, te capacita e te coloca para bater o pênalti;, completa Queiroz.

Em ano comemorativo, além de Os Saltimbancos, a agrupação prepara mais um espetáculo, Poemas. Algo diferente de tudo o que já apresentaram, mas que tem estampado o selo da união familiar: ATA e Hugo Rodas. Com ensaios semanais no Espaço Cultural Renato Russo, onde são o grupo residente, eles não param de trabalhar. ;É um trabalho de desenvolvimento constante, de fluidez do movimento, da consciência corporal. Porque com toda a nossa diversidade, a gente precisa virar um corpo só;, declara Dani. ;Vai embora e cria seu grupo de guerra;, acrescenta e finaliza Hugo Rodas.

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