Agora é outra história

Agora é outra história

Mediante redirecionamentos admitidos pelo Ministério da Educação, expectativa, em humanas, é de prova mais curta, técnica e conteudista

Jairo Macedo Especial para o Correio Daniela Santos*
postado em 16/09/2019 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Não bastassem as preocupações quanto ao conteúdo regular do exame, cresce entre candidatos ao Enem a expectativa de uma prova diferente das anteriores. Não é para menos. Na educação brasileira, muito tem mudado: a nova administração federal promoveu, desde o início do ano, constantes trocas de cargo no Ministério da Educação (MEC) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia responsável pelo exame.

Mais que isso, levantou controvérsias sobre o exame, como a exclusão do que considera ;viés ideológico; e a possível leitura prévia das questões, hipótese descartada depois. A profusão de discursos resvala nos candidatos e pode influenciar, em especial, as ciências humanas. O Inep admite que a seleção dos conteúdos deste ano priorizou temas menos polêmicos e, presume-se a partir disso, mais técnicos e de abordagem direta ao ponto.

;Este ano tenho a impressão de que vai ser mais teórico, principalmente pela mudança no comando do MEC. Vão evitar temas controversos;, opina o estudante Rodrigo Villar, 17. Colega dele no Sigma, Vanessa Menezes discorda. ;Espero que mantenham a mesma forma de anos anteriores. É uma prova em que você precisa ler e interpretar, e acho que continuará assim.;

Conteudista
O professor Orlando Stiebler enxergou o exame de 2018 como coerente com a tradição do Enem, de temas sobre minorias sociais e reflexões a respeito. Para 2019, a história é diferente. ;Acredito que pode haver uma mudança no sentido da prova ser mais conteudista;, avalia. Por ;conteudista;, ele entende indagações com menos reflexão sobre o problema apresentado e mais conhecimento estrito do fato ocorrido. ;Ou seja, pode indagar o momento histórico da Revolução Francesa, mas não trazer aquilo para o diálogo com os dias de hoje;, exemplifica. ;Mantém-se o conteúdo, mas a abordagem pode ser mais técnica e objetiva;, sintetiza.

O espectro de uma nova prova tem rondado o exame há algum tempo, acredita o professor Leandro Vieira. ;No ano passado, já havia uma perspectiva de mudanças em função do governo, que havia passado às mãos de Michel Temer, mas isto não chegou a se concretizar. O padrão vinculado à resposta e à estrutura foi bem parecido;, avalia.

Desta vez, a possibilidade de alterações é mais palpável. ;A gente espera também uma prova mais encurtada em tamanho, como foi dito que fariam;, diz Leandro Vieira. ;Em humanas, acredito que caiam menos questões que envolvam temáticas sociais como ambientalismo, racismo e escravidão. São temas que sempre foram mote da prova, aparecendo em larga escala.;

Dito isso, é de se esperar que a ditadura militar brasileira seja outro assunto limado do exame? ;Não diria que será excluída, mas cobrada de modo diferente. Por exemplo, sob o viés econômico. Temas espinhosos como a política externa do Brasil atual é outro ;vespeiro; no qual não se deve mexer;, avalia Stiebler.





Prova perde
Questões de gênero e revisão do papel histórico da mulher também perdem força, na avaliação do professor Cláudio Hansen. Ele relembra que, em outras edições, o tema suscitou itens interessantes, como o pensamento de Simone de Beauvoir, em 2015, e o aumento da presença feminina em equipe da Nasa, em 2016. Esta traçava paralelo entre notícia sobre a agência espacial norte-americana e propaganda dos anos 1960, na qual se lia: ;As mulheres do futuro farão da Lua um lugar mais limpo para se viver;. O anúncio era de um produto de limpeza, que uma ;astronauta; segurava. ;Pautas como essas devem perder força neste momento;, lamenta.

Em se concretizando, essa expectativa decepcionará o professor. ;O Enem nasceu para ser uma forma diferente de pensar provas de ensino médio no Brasil. O propósito sempre foi buscar o conteúdo além do conteúdo, conversando com a realidade das pessoas.;

O professor de história Orlando Stiebler também lastima. ;A prova trata de temas interdisciplinares e debate aspectos sociais graves do Brasil, sempre com viés crítico sobre qualquer regime, de esquerda ou direita;, diz.

;Por isso, as questões quase não têm interrogação. Parece um detalhe pequeno, mas exemplifica o método do exame: o candidato mostra o contexto e procura a opção que melhor se relaciona. Quando evitamos temas reais, uma camada inteira de estudantes acaba se distanciando das questões;, acrescenta Hansen.

De todo modo, a rotina de Gabriela Gonzaga segue focada em informações para além da sala de aula. ;Tento ler vários jornais, porque sempre trazem opinião de diferentes espectros políticos. A partir daí, filtro as informações, de acordo com o que é mais importante para o conteúdo em si;, conta. ;Questões sobre desigualdade social te ajudam a crescer como ser humano também. Espero que continuem;, torce a candidata Vanessa Menezes.

* Estagiária sob supervisão de Jairo Macedo




Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação