Trânsito: o que dá orgulho?

Trânsito: o que dá orgulho?

ADRIANA BERNARDES adrianabernardes.df@dabr.com.br
postado em 19/09/2019 00:00
Setembro é o mês que, nacionalmente, se discute temas relacionados ao trânsito. No Distrito Federal, o lançamento da programação da Semana Nacional do Trânsito no DF foi cancelado faltando horas para começar. O Palácio do Buriti não deu explicações nem marcou uma nova data.

Apesar ter conquistado uma redução histórica no número de acidentes e de vítimas mortas nas pistas, o trânsito e a mobilidade urbana na capital se deterioram dia a dia. Brasília, com raras exceções ; a faixa de pedestres e a construção de ciclovias ; definitivamente não está alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização Mundial da Saúde.

Brasília é uma cidade hostil com qualquer um que tente aderir à mobilidade ativa. Caminhar e pedalar por aqui é um desafio à vida ou à morte, inúmeras vezes denunciado por ONGs, nas pesquisas das universidades, por gente anônima que ganha voz graças às reportagens sobre o tema, como a publicada esta semana no Correio e que mostra o descaso do governo com as faixas de pedestres, boa parte delas apagadas.

Brasília, para começar, não tem o básico: calçadas. As poucas ciclovias existentes apresentam inúmeras falhas que impossibilitam ou dificultam o seu aproveitamento. Aliado a isso, a velocidade das vias é alta, um evidente risco para pedestres, ciclistas e também para motoristas e motociclistas.

Para a cidade que nasceu com o conceito do rodoviarismo, falar em redução das velocidades para tornar o trânsito mais humano e seguro é crime quase capital. Os donos dos meios de produção, os detentores do capital e de carros com motores potentes têm horror a isso. E têm vencido a batalha, porque os governantes do DF estão aliados com o pensamento dessa minoria em detrimento do mais importante: salvar vidas!

Apesar do imenso desafio, o governador Ibaneis Rocha tem a chance de obter excelentes resultados nessa área. A Universidade de Brasília, em especial, e outras universidades da capital têm pesquisas publicadas na área que podem embasar projetos transformadores que, novamente, colocariam Brasília em lugar de destaque no cenário nacional, como ocorreu em 1997, quando o respeito ao pedestre virou regra por aqui.

As estatísticas de trânsito ainda estão confortáveis para o governo, com índices de acidentes e de mortes menores que os regiatrados no mesmo período do ano passado. Mas até quando vamos enxergar as vidas perdidas como equações matemáticas? Quantas mortes podemos considerar aceitáveis? E se dentro dessa conta estivesse um amigo, um irmão, um pai, um filho, uma avó, ainda assim seriam aceitáveis?

Um trânsito mais seguro passa por oferta de transporte público de qualidade, segurança nos deslocamentos a pé e de bike, redução das velocidades, sinalização das vias, pistas de boa qualidade, educação do motorista habilitado e das crianças desde a primeira infância, entre outras políticas. Dessa lista, o que temos hoje em Brasília pode nos orgulhar?

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