Embrapa: como continuar na vanguarda?

Embrapa: como continuar na vanguarda?

» ENEDINO CORRÊA DA SILVA Engenheiro agrônomo, MsC, doutor. Pesquisador aposentado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e ex-professor da Universidade de Brasília (UnB)
postado em 19/09/2019 00:00


Quando da criação da Embrapa, em 1973, na gestão do ministro da Agricultura do emérito engenheiro agrônomo Luiz Fernando Cirne Lima, a empresa teve como meta principal a formação de seus funcionários, no nível de pós-graduação. Foi um investimento valioso na época, quando cerca de mil pesquisadores realizaram cursos no país e no exterior, em um período relativamente curto, com bolsas de estudo que garantiam a sobrevivência deles. Hoje, parte envelheceu.

A Embrapa é uma estatal que se diferencia das demais. Não há ingerência política em seus quadros diretivos. O paraquedismo não existe. Seus diretores são eleitos na própria instituição e são arguidos por banca externa, levando em consideração seus currículos, conhecimentos e vivência no âmbito da instituição. É uma empresa que apresenta um retorno imensurável e seus técnicos são altamente qualificados, tendo em vista seu programa de capacitação.

Pesquisas realizadas com todo critério estatístico e por órgãos externos à Embrapa mostram, por exemplo, em seu histórico, que descoberta ocorrida em seus primórdios ; o rhizobium ; substitui a adubação nitrogenada, sendo o nitrogênio (N) um dos insumos mais caros da trilogia N, P, K. Este retorno é de U$ 40 bilhões ao longo do tempo.

Com toda a crise brasileira, a Embrapa sobrevive e serve de exemplo a outras estatais. A assertiva de Albert Einsten, no início do século passado, de que ;a imaginação do ser humano está acima de seu conhecimento; prevalece. Na crise, se faz necessário na empresa e em sua gestão, uma reengenharia de processos e uma reengenharia da informação, para, após, realizar a sua melhoria.

Na Embrapa, como em toda instituição de pesquisa, existe a atividade-meio e a atividade-fim, sendo esta o seu carro-chefe e onde se faz premente uma reativação na formação de seus pesquisadores, em especial os mais jovens. Um outro aspecto é aquele que o leitor poderia perguntar: qual é o alvo das pesquisas realizadas pela empresa? O alvo é direcionado àqueles usuários, cujas pesquisas não são de interesse da iniciativa privada. O melhoramento genético, por exemplo, em que se destacam a criação de cultivares resistentes a doenças e pragas seriam pesquisas de vanguarda, aliás é o que a Embrapa vem realizando.

O intercâmbio científico e tecnológico com outras instituições, quer nacionais. quer internacionais, sempre foi um foco que prevaleceu nas atividades, preferencialmente universidades e institutos de pesquisa, nas quais se destacam escritórios plantados em países onde existem interesses, como os Estados Unidos.

Como dito anteriormente, quanto a um programa de capacitação e atualização dos funcionários da empresa, este envolve seminários, consultorias, estágios e treinamento em serviço, além, é claro, de cursos de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado.

A realização dessas atividades deve ser feita por meio de um estudo bem planejado e uma estratégia adequada, uma vez que o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), coordenado pela Embrapa, conta com pesquisadores com formação diversificada, com uma grande variedade de áreas de pesquisa, com atividades abrangentes; possui um número elevado de unidades distribuídas em todos os estados do país.

Um vez que a Embrapa está capacitada para realizar pesquisas, principalmente no sentido social, e levando em consideração que ela é fundamental para o bom desempenho do agronegócio, e para evitar andar com o pires na mão por recursos, poderia também criar uma ;Câmara de Comércio;, onde negociaria as tecnologias que gera, as quais são muito importantes para o sucesso da agricultura brasileira. Ainda no aspecto técnico-científico, a empresa deve se dedicar, nas suas atividades, ao desenvolvimento de tecnologia de ponta, como o desenvolvimento de algorítimos para a inteligência artificial, uma vez que ela já exerce pesquisas com nanocultura.

A verdade é que a necessidade de pesquisa agrícola é um fato consumado, uma vez que os produtores rurais estão ávidos por tecnologias que representem um ganho de produtividade, sem aumentar a área cultivada. Uma possível melhora na economia brasileira fará com que o país saia da crise e com que a Embrapa siga seu curso normal. A iniciativa do ministro Cirne Lima deve representar um novo tempo de uma empresa que teve e tem a missão de levar a tecnologia e a inovação ao campo, reinventando-se num processo de empoderamento, como preconiza o próprio governo federal.

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