Adversários apostam no fim da era Netanyahu

Adversários apostam no fim da era Netanyahu

Israel / Contados os votos da eleição de terça-feira, o premiê joga as últimas cartas pela própria sobrevivência política, mas deve perder para o principal oponente a prioridade na missão (quase impossível) de formar o próximo governo

postado em 19/09/2019 00:00
 (foto: Menahem Kahana/AFP)
(foto: Menahem Kahana/AFP)



O gabinete do presidente Reuven Rivlin, em Jerusalém, deve ser a primeira parada na via-crúcis do processo pelo qual Israel tentará romper o impasse político e formar o novo governo, após uma eleição sem vencedor claro ; a segunda em seis meses. Com a apuração praticamente concluída, o general Benny Gantz, ex-comandante do Exército, parecia ter garantido uma vantagem mínima sobre o premiê em exercício, Benjamin Netanyahu: 33 cadeiras contra 32, das 120 que compõem a Knesset (parlamento). Pode ser o suficiente para que Rivlin, desafeto do chefe de governo, dê ao principal líder da oposição a prioridade para tentar compor um gabinete com a maioria exigida de 61 deputados.

;Iniciamos as negociações e vamos conversar com todo mundo;, afirmou Gantz aos correligionários do partido centrista Kahol Lavan (;azul e branco;, as cores da bandeira israelense), quando se delineou com mais clareza o quadro na nova Knesset. ;Chamo todos os meus rivais a deixarmos de lado as discordâncias e trabalharmos por uma sociedade justa e igual;, completou. ;Não às provocações e às divisões. Não à corrupção e não às tentativas de destruir a democracia. Sim para Israel como um Estado judaico e democrático.;

O premiê que governou Israel por mais tempo ; 13 anos ao todo, inclusive os últimos 10 ; reagiu aos resultados no sentido oposto. Determinado a manter o cargo, também para evitar o julgamento em três processos por corrução, Bibi, como é conhecido, colocou a própria sobrevivência política como questão de segurança para o país. ;Só há duas opções: ou um governo chefiado por mim, ou um integrado por partidos árabes antissionistas;, disparou. ;Mais do que nunca, com os desafios diplomáticos e de segurança que temos pela frente, temos de fazer tudo possível para evitar que se forme um gabinete como esse. Não pode haver, e não haverá, um governo que se apoie em partidos que negam a existência de Israel.;

Netanyahu se referia a um dos fatores que complicam o xadrez político israelense depois da eleição de terça-feira. Com a projeção de ocupar 12 cadeiras, a Lista Unida dos partidos que representam os cidadãos israelenses de origem árabe terá a terceira maior bancada. Na campanha, deixou claro que sua prioridade seria afastar o atual primeiro-ministro. ;A era Netanyahu acabou;, proclamou um dos líderes da coligação, Ahmed Tibi. Embora não tenha declarado apoio a um governo do Kahol Lavan. ;Se Benny Ganz nos chamar para conversar, vamos expor nossas condições para um acordo.;

O dilema do general, veterano de guerras mas estreante na política, é semelhante aos obstáculos no caminho do adversário. Somado às legendas de esquerda e à Lista Unida, ele reuniria 56 deputados, o mesmo total que Bibi seria capaz de agrupar com o Likud, uma outra formação de direita e os partidos religiosos. Para superar o ;número mágico; de 61 cadeiras, ambos os blocos precisariam dos oito deputados eleitos pelo Yisrael Beiteinu, partido liderado pelo ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman. Ultranacionalista, mas intransigente na preservação de um Estado secular, ele se perfila como incompatível tanto para os partidos árabes quanto para os religiosos. Na primeira reação ao resultado das urnas, Lieberman apresentou como ;única saída; uma coalizão entre seu partido, o Kahol Lavan e o Likud.

Assim como as demais opções cogitadas até ontem (leia o quadro abaixo), essa esbarra em vetos recíprocos, um cenário semelhante ao que resultou da última eleição em abril. A convocação de uma terceira eleição poderia atender aos interesses de Netanyahu, mas desagrada todos os demais, a maioria dos israelenses e ; mais importante ; o presidente Reuven Livlin. ;Israel tem um problema;, resume o analista Ben-Dor Yemini, no jornal Yedioth Ahronot. ;O país tem uma ferida aberta, a doença do ódio nos invadiu. Algumas pessoas querem que as divisões entre direita e esquerda se acentuem, e é justamente assim que a doença se espalha.;


Quase sem solução

Opções para superar o impasse político esbarram em obstáculos

Governo de união
Uma coalizão entre Kahol Lavan, Likud e Yisrael Beiteinu seria a opção pela maioria mais segura, com mais de 70 dos 120 deputados. Ela esbarra, porém, na questão da permanência de Benjamin Netanyahu, vetada até aqui pelo líder do Kahol Lavan, Benny Gantz. A exclusão de Bibi, por outro lado, dependeria da sua substituição no comando do Likud, possibilidade por ora descartada.

Coalizão a dois
Os dois maiores partidos somariam mais dos que as 61 cadeiras que caracterizam a maioria parlamentar. Não têm diferenças incontornáveis sobre as principaís questões do país, inclusive o impasse com os palestinos. O grande obstáculo seria Netanyahu. O atual premiê acenou com a alternância dos dois líderes na chefia do governo. Gantz, porém, considera a saída de Bibi essencial para resgatar a respeitabilidade do cargo de premiê.

Direita com ortodoxos
Com alguma mínima variação de última hora, o bloco de partidos de direita e religiosos aglutinados pelo Likud reúne apenas 56 cadeiras. Poderia obter maioria com a adesão do Yisrael Beiteinu, mas isso exigiria uma mudança da posição de seu líder. Avigdor Lieberman afirmou reiteradas vezes, durante a campanha, que não integraria um governo ao lado dos ultraortodoxos.

Centro-esquerda com Lieberman
Benny Gantz pode contar com 56 deputados somando seu partido, duas pequenas formações de esquerda e a Lista Unida dos partidos árabes. Também dependeria do Yisrael Beiteinu para fechar a maioria parlamentar, mas Lieberman e os árabes se excluem mutuamente.

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