Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

Uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as fake news era tudo o que o eleitor precisava para descobrir a real ação de mercenários nas eleições de 2018. A dificuldade é que a polarização política e a força do governo no colegiado podem transformar tudo em mentirinha

por Leonardo Cavalcanti leonardocavalcanti.df@dabr.com.br
postado em 23/09/2019 00:00


A CPI de todas
as desconfianças

No início da noite da última quinta-feira, o senador Angelo Coronel (PSD-BA) desbloqueou rapidamente o celular e mostrou a surpreendente quantidade de mensagens recebidas no aplicativo WhatsApp: 835 mil. ;É só pau, xingamento, tem hora que eu não consigo nem ligar, tudo depois de me tornar presidente da CPI Fake News;, disse o parlamentar. Minutos antes, ele havia recebido um relatório da Polícia Legislativa com o depoimento do autor de ameaças de morte feitas por e-mail. O homem, um piloto desempregado localizado em Belo Horizonte, confirmou o crime. ;Mas uma coisa são os xingamentos, outra, as ameaças.;

Se a vida de Coronel mudou desde que assumiu o comando da CPI há menos de 15 dias, a pressão que o colegiado pode exercer sobre o Planalto assusta governistas e, principalmente, o pessoal do PSL, o partido do presidente Jair Bolsonaro. A primeira ação do grupo foi levar uma parte da família do capitão reformado para dentro da comissão: Eduardo e Flávio, respectivamente deputado e senador, atuarão como cães de guarda do Planalto, a partir da obstrução das votações. Uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as fake news era tudo o que o eleitor precisava para descobrir a real ação de mercenários nas eleições de 2018. A dificuldade é que a polarização política e a força do governo no colegiado podem transformar tudo em mentirinha.

Angelo Coronel, por sua vez, parece disposto quebrar a rede de proteção, a partir de uma estratégia de dar forma à CPI a partir de temas periféricos ; como o dos jogos perigosos para crianças e a responsabilização das plataformas ; antes de chegar ao que importa: o uso da máquina de fake news na campanha do ano passado. Os obstáculos, porém, avançam para além da polarização política, como a força da CPI para as convocações e a própria capacidade técnica de parlamentares e servidores. Sobre as convocações, Coronel afirma: ;Todos os atores envolvidos deveriam depor, inclusive Carlos Bolsonaro (vereador no Rio). O próprio pai diz que ele era o responsável pelas redes sociais. Ele precisa ser chamado, até para ele ensinar aos parlamentares como funciona.;

Sobre as dificuldades técnicas, o parlamentar diz que a CPI vai requisitar pessoal especializado do próprio Congresso, a partir de determinação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ofereceu voluntariamente gente para o trabalho. ;Não temos parlamentares preparados. Não temos ninguém preparado. Eu mesmo não sou expert, sou curioso, estou tentando aprender;, diz Coronel. A intenção é a de que, em 30 dias, os integrantes da CPI se debrucem sobre as eleições de 2018 e sobre os impulsionamentos de fake news nas redes sociais. As desconfianças podem levar a um resultado de mentirinha. ;Quem está antecipando o debate é o próprio PSL ao falar em barrar convocações. Ninguém convocou ninguém. Eles são praticamente como réus confessos;, afirma Coronel.

A ideia dele é antecipar algumas medidas antes mesmo da conclusão da CPI: ;Hoje, as plataformas sociais simplesmente são ilesas, não têm nenhuma sanção a uma plataforma social quando veicula uma notícia falsa. Temos de tentar dar um freio nisso;. Pelo princípio da anualidade, que só autoriza mudanças nas regras eleitorais um ano da eleição, é dada como certa a impossibilidade de a CPI conseguir mudar alguma regra para o ano que vem, pois isso teria de ocorrer nos próximos 15 dias, a partir da aprovação de projetos.

Witzel, o calado

Há poucas políticas tão vexatórias como as de segurança do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel ; o silêncio dele nas últimas horas é ainda mais constrangedor. Há poucas histórias tão tristes como o assassinato da menina Ágatha, de 8 anos. Há poucos projetos tão mal discutidos como o apresentado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, que prevê uma licença a policiais matarem.

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