Brasil troca os pés pelas mãos

Brasil troca os pés pelas mãos

Goleiros são os únicos finalistas do país no %u201COscar%u201D do futebol. Em entrevista exclusiva ao Correio, Julio Cesar, melhor da Europa em 2010, fala do sucesso da dupla Alisson e Ederson

Marcos Paulo Lima
Marcos Paulo Lima
postado em 23/09/2019 00:00
 (foto: Glyn Kirk/AFP)
(foto: Glyn Kirk/AFP)

Houve um tempo em que goleiro era considerado zero à esquerda no futebol brasileiro. A cerimônia do Fifa The Best, hoje, às 14h30 (de Brasília), no Teatro alla Scala, em Milão, na Itália, pode exaltar os humilhados pela segunda vez em 10 anos. O gaúcho Alisson (Liverpool) e o paulista Ederson (Manchester City) são os adversários do alemão Ter Stegen (Barcelona) na disputa pelo prêmio de número 1 do mundo na outrora desprezada posição.

A categoria melhor goleiro é recente no ;Oscar; do futebol. O italiano Buffon conquistou a estatueta em 2017. O belga Courtois arrematou no ano passado. Em jejum na categoria mais importante há 12 anos, ou seja, desde a consagração de Kaká em 2007, e desfalcada da recordista Marta na premiação feminina, resta à pátria de chuteiras trocar os pés pelas mãos, vestir as luvas e torcer pelo titular e o reserva de Tite na Seleção.


Alisson, 26 anos, levou o Liverpool ao título da Champions League-2018/2019. No meio do ano, conquistou a Copa América e a Supercopa da Europa. Não seria exagero ele disputar o prêmio de melhor do mundo com o zagueiro e colega de time Virgil van Dijk, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Com a mesma idade de Alisson, Ederson conquistou a Premier League, a Copa da Inglaterra, a Copa da Liga Inglesa e a Supercopa da Inglaterra. Azarão, Ter Stegen deu a volta olímpica no Campeonato Espanhol. E só.

No mês passado, Alisson igualou feito de Julio Cesar ao ser eleito pela Uefa o melhor goleiro da Europa. O arqueiro aposentado foi o primeiro a conquistar a distinção em 2009/2010. Na época, brilhou na tríplice coroa da Inter: Champions, Campeonato Italiano e Copa Itália. O evento da Uefa é uma prévia do Fifa The Best. Assim, Alisson é o favorito.


Em entrevista exclusiva ao Correio, Julio Cesar exalta a revolução da escola brasileira. ;Fico muito feliz com essa fase do Alisson e do ;Ed;. De certa maneira, colaborei para isso com Dida, Taffarel e outros da minha geração, como Helton, Gomes, Doni, o próprio Diego Alves, que voltou a jogar no Brasil;, afirma. ;É uma nata de goleiros que vem fazendo um trabalho maravilhoso nos últimos 10 anos. Hoje, o goleiro brasileiro tem um grandíssimo respeito.;

Julio Cesar recorda o preconceito sofrido pelos goleiros até pouco tempo. ;Na minha época, se falava muito do camisa 10, do número 9, e do goleiro brasileiro falava-se pouco, era pouco respeitado. Essa mudança ajuda um pouco para que outros nomes concretizem o sonho de atuar fora do Brasil, aqui na Europa;, diz Julio Cesar, radicado em Portugal.

Titular da Seleção nas Copas do Mundo de 2010 e 2014 e segundo reserva em 2006, Julio Cesar trabalhou com Ederson no Benfica. Conhece de perto o trabalho do pupilo de Pep Guardiola. Porém, aposta no sucesso de Alisson no Fifa The Best. ;A vitória coletiva (do Liverpool) abrilhanta o individual. Isso é normal. Que essa fase deles seja duradoura e que muitos clubes continuem apostando nos goleiros brasileiros aqui fora;, torce.

Contramão
Enquanto Alisson e Ederson driblaram o preconceito nacional e internacional, Ter Stegen representa uma escola consagrada. Em 2014, Neuer disputou o prêmio de melhor jogador do mundo com Messi e Cristiano Ronaldo. Oliver Khan foi eleito o melhor da Copa 2002 antes mesmo de sofrer dois gols de Ronaldo na final. De 1999 a 2002, faturou quatro vezes consecutivas a estatueta de número 1 da Europa oferecida pela Uefa. Além de Neuer e de Khan, Sepp Maier mereceu a Luva de Ouro na Copa 1974.

Ederson e Ter Stegen se diferenciam de Alisson pela qualidade com a bola nos pés. O titular de Tite tem evoluído no fundamento, mas ainda está aquém dos concorrentes. Os brasileiros, porém, iniciaram a temporada 2019/2020 dando sustos. Alisson falhou feio em um amistoso contra o Lyon. Ederson errou na saída de gol, e o Peru balançou a rede na derrota da Seleção neste mês, em Los Angeles. O alemão Ter Stegen engoliu alguns frangos na temporada anterior.



Colégio eleitoral

Na categoria de goleiro, a escolha é exclusivamente feita por especialistas. Os finalistas foram indicados até 28 de julho e conhecidos no último dia 2. Um painel formado por goleiros e atacantes, escolhidos pela Fifa, elegerá o vencedor.



; Finalistas

Masculino

; Melhor jogador
Virgil van Dijk (Liverpool ; Holanda)
Lionel Messi (Barcelona ; Argentina)
Cristiano Ronaldo (Juventus ; Portugal)

; Melhor goleiro
Alisson (Liverpool ; Brasil)
Ederson (Manchester City ; Brasil)
Marc André ter Stegen
(Barcelona ; Alemanha)

; Melhor treinador
; Pep Guardiola
(Manchester City ; Espanha)
; Jurgen Klopp (Liverpool ; Alemanha)
; Mauricio Pochettino
(Tottenham ; Argentina)

; Puskás
; Lionel Messi (Barcelona ; Argentina)
; Juan Fernando Quintero
(River Plate ; Colômbia)
; Dániel Zsóri (Debrecen ; Hungria)

Feminino

; Melhor jogadora
; Lucy Bronze (Lyon ; Inglaterra)
; Alex Morgan (Orlando Pride ; EUA)
; Megan Rapinoe (Reign ; EUA)

; Melhor goleira
; Christiane Endler (PSG ; França)
; Hedvig Lindahl
(Chelsea/Wolfsburg ; Suécia)
; Sari van Veenendaal
(Arsenal/Atlético de Madrid ; Holanda)

; Melhor treinador
; Jill Ellis (Estados Unidos)
; Phil Neville (Inglaterra)
; Sarina Wiegman (Holanda)



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