Para não esquecer

Para não esquecer

ADRIANA IZEL adrianaizel.df@dabr.com.br
postado em 24/09/2019 00:00
Quando eu tinha oito anos, sonhava em ser jornalista. Sonho esse que realizei na vida adulta. Naquela época, provavelmente eu não sabia, mas era um dos meus privilégios: o de sonhar e de ter tido a oportunidade de, anos depois, realizar. Não sei quais eram os sonhos de Ágatha Vitória Sales Felix, 8 anos. Se ela, por estudar balé, almejava ser bailarina ou quem sabe, por falar inglês, ser diplomata... Essa é apenas a minha especulação com base no que o avô da jovem disse. Hoje não importa qual era o sonho da pequena, eles foram embora na última sexta-feira, quando ela foi atingida por um tiro nas costas dentro de uma kombi que transitava pelo Complexo do Alemão.

Ágatha não foi a única que teve uma vida interrompida precocemente por uma bala perdida. Ela é a quinta das 16 crianças baleadas a morrer baleada, este ano, no Rio de Janeiro. Antes dela, Jenifer Gomes, 11 anos, Kauê dos Santos, 12, Kauã Rozário, 11, e Kauan Peixoto, 12, também foram enterrados com os sonhos e as juventudes. As informações são da plataforma Fogo Cruzado, uma página na internet que alerta sobre tiroteios no estado carioca e noticia as mortes que acontecem nas áreas periféricas do Rio de Janeiro.

É impossível não se abalar com dados como esse. Impossível não se colocar no lugar do outro. Quer dizer, parece que, para alguns, é possível, sim. O primeiro pronunciamento oficial de autoridades veio só no domingo. O governador do Rio de Janeiro convocou uma coletiva para a tarde de ontem. A impressão que fica é que a morte de crianças nas favelas por bala perdida tem se naturalizado, é só mais uma estatística.

Isso me fez lembrar de uma música de Elza Soares, Não tá mais de graça, composta por Rafael Mike e que integra o disco Planeta fome (2019). Na canção, a cantora fala sobre como as tais balas perdidas têm um endereço certo: ;Não tem bala perdida, tem seu nome/ É bala autografada;. Se você dúvida, neste ano, o Atlas da Violência mostrou que 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. A taxa de homicídio para a população negra foi de 43,1 para cada 100 mil, enquanto para a branca foi de 16 para a mesma quantidade.

Que a gente não esqueça de Ágatha e de todas as outras crianças assassinadas. Que a gente lute por um Brasil com mais segurança. Quem sabe um dia a gente encontre o Brasil citado em País dos sonhos, de Elza Soares ; também de Planeta fome ;, que ;não ouse condenar só negros e pobres;.

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