Suspense em Washington

Suspense em Washington

Congresso estabelece prazo até quinta-feira e exige acesso à denúncia de informante que sinalizou suposta pressão do presidente Trump sobre a Ucrânia para investigar Joe Biden. Magnata republicano admite contato e acusa "caça às bruxas"

Rodrigo Craveiro
postado em 24/09/2019 00:00
 (foto: RODRIGO CRAVEIRO)
(foto: RODRIGO CRAVEIRO)

A percepção dentro da Casa Branca é de que Donald Trump enfrenta um problema sério depois que um informante de inteligência denunciou um telefonema no qual o presidente norte-americano teria pressionado o colega ucraniano, Volodymyr Zelensky, a investigar o ex-vice-presidente democrata Joe Biden e o filho Hunter (leia o Entenda o caso). No Capitólio, sede do Congresso, intensificam-se as cobranças para que o governo divulgue documentos sobre a conexão entre Trump e Zelensky. A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosy, estabeleceu um prazo até quinta-feira para o diretor da Inteligência Nacional, Joseph Maguire, entregar a denúncia completa do informante ao Comitê de Inteligência da Câmara.

Ex-governador de Massachusetts e potencial adversário de Trump nas primárias republicanas, Bill Weld acusou o chefe de Estado de ;traição;. ;A pena para traição, sob o código penal dos Estados Unidos, é a morte. Esta é a única pena. A pena sob a Constituição é a remoção do cargo e isso pode parecer uma boa alternativa se ele puder trabalhar em um acordo judicial;, declarou.

Trump admitiu o diálogo com o ucraniano, tornou a apontar perseguição política e exigiu o nome do informante. ;Tivemos um telefonema perfeito. (;) Todo mundo sabe que é apenas uma caça às bruxas dos democratas;, afirmou a jornalistas. O magnata republicano negou ter ameaçado reter ajuda militar a Kiev caso a Ucrânia não investigasse Biden, seu potencial adversário nas eleições de 2020. ;Eu não dei uma declaração de que ;você tem de fazer isso ou não irei ajudá-lo;. Eu não faria isso;, disse.

No início do mês, a Casa Branca liberou US$ 250 milhões em assistência militar aos ucranianos. Trump partiu para a ofensiva e atacou o ex-vice-presidente democrata. ;Joe Biden e seu filho são corruptos. Tudo bem? Mas as fake news não querem divulgar isso porque eles são democratas.; Perguntado se ele estava levando a ameaça de alguns democratas a sério, respondeu: ;Não é nada sério;.

Em seu perfil no Twitter, o presidente forneceu a sua versão da história. ;O governo ucraniano disse que não foram pressionados durante o telefonema ;bacana;. O sonolento Joe Biden, por outro lado, forçou um promotor durão a não investigar a empresa de seu filho, sob ameaça de não dar muito dinheiro à Ucrânia. Essa é a história real;, escreveu. ;Agora, a mídia fake news diz que eu ;pressionei o presidente ucraniano pelo menos oito vezes durante meu telefonema para ele;. Isso supostamente vem de um chamado ;informante;, que dizem nem sequer ter um relato em primeira mão do que foi dito.;


Traição
Jeffrey Cramer, ex-procurador federal por 12 anos no Departamento de Justiça e analista do Berkeley Research Group (na Califórnia), avaliou ao Correio que a denúncia contra Trump é ;muito grave;. ;Indiscutivelmente, seria traição se o presidente estivesse trocando ajuda militar dos Estados Unidos em troca de um favor político pessoal;, advertiu. ;Muito menos crucial é o fato de que isso seria uma violação da lei de financiamento de campanha, a qual proíbe a aceitação de qualquer valor de um governo estrangeiro. É provável que não exista um caso criminal devido a várias questões legais, incluindo a impossibilidade de um presidente em exercício ser indiciado, segundo a política do Departamento de Justiça. A única ação é por meio do Congresso, através de um impeachment;, acrescentou. Nesse caso, Trump poderia ter violado o juramento.

No domingo, o influente deputado democrata Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, admitiu que suas principais dúvidas sobre um eventual impeachment estavam desaparecendo depois da ligação de Trump a Zelensky. ;Estamos falando de abuso grave ou flagrante e possível violação da lei;, disse Schiff à rede de TV CNN. ;Eu tenho muita relutância em seguir o caminho da destituição, (mas) o presidente está nos empurrando nesse caminho.; De acordo com o site The Hill, estrategistas democratas acreditam que o suposto escândalo possa beneficiar Biden e fazê-lo vencer a nomeação para candidato às eleições. Eles entendem que as ações de Trump sugerem que o presidente se sente mais ameaçado por Biden em uma disputa direta.


Foguete cai perto da embaixada americana em Bagdá

Um foguete caiu, na noite de ontem, perto da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, informou uma fonte dos serviços de segurança à agência France-Presse (AFP), enquanto o comando militar iraquiano indicou que houve no total dois disparos de projéteis. As sirenes da representação diplomática soaram em duas ocasiões, informaram fontes estrangeiras presentes no local. O ataque ocorre em um contexto de fortes tensões entre Estados Unidos e Irã, as duas potências com maior presença no Iraque. ;Um foguete Katiusha atingiu às 23h40 (17h40 em Brasília) a Zona Verde, não muito distante da embaixada americana;, disse à AFP um oficial da polícia. Por sua vez, o comando militar iraquiano informou que ;dois disparos de morteiro; caíram próximo à Zona Verde, mas não citou a embaixada dos EUA. Até o fechamento desta edição, a autoria dos disparos não tinha sido reivindicada.



Entenda o caso

Telefonema indiscreto

Um informante anônimo denunciou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou persuadir o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a prover informações prejudiciais sobre o ex-vice-presidente Joe Biden, possível adversário do magnata nas eleições de 2020. Durante a conversa, ocorrida em julho, os dois chefes de Estado teriam abordado as supostas denúncias de corrupção que envolvem Biden e o filho Hunter.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, no telefonema, Trump pressionou Zelensky cerca de oito vezes para investigar o possível caso de corrupção envolvendo Hunter, que trabalhou com uma companhia ucraniana de gás natural quando o pai era vice-presidente de Barack Obama. Biden comentou o assunto no domingo, classificando as ações de Trump como ;um aterrador abuso de poder;. ;Sei o que estou enfrentando, um abusador em série. É isso que esse cara é;, afirmou Biden.

Trump, por sua vez, reconheceu que teve ;uma grande conversa, muito direta, muito honesta;. ;A conversa foi, em grande medida, de parabenização, em grande parte, (sobre) corrupção (...) e em grande parte (sobre) o fato de que não queremos nosso povo, como o vice-presidente Biden e seu filho, criando corrupção (...) que já existe na Ucrânia;, admitiu o ma

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