Politicamente correto

Politicamente correto

Inclusão da pessoa com deficiência, ativismo LGBT, racismo e fair play: como os temas da festa de gala podem ter ajudado a entidade máxima do futebol a minimizar a imagem manchada por denúncias de corrupção

MARCOS PAULO LIMA MAÍRA NUNES
postado em 24/09/2019 00:00
 (foto: Fotos: Marco Bertorello/AFP)
(foto: Fotos: Marco Bertorello/AFP)



A cerimônia de gala da Fifa, ontem, no Teatro alla Scala, em Milão, na Itália, pode ser interpretada como o dia em que a entidade máxima do futebol soube aproveitar a diversidade de discursos em causa própria na tentativa de entregar à comunidade da bola e ao mundo a imagem de uma organização politicamente correta.

Manchada por denúncias recentes de corrupção na operação Fifagate, deflagrada em maio de 2015 pelo FBI, a dona da festa celebrou a inclusão social ao premiar a mãe de um torcedor deficiente visual; consagrou uma ativista LGBT melhor jogadora do mundo; e se rendeu ao Fair Play (jogo limpo) de um técnico apelidado de louco.

Houve ainda quebra de paradigmas e restauração da ordem. Alisson se tornou o primeiro goleiro brasileiro eleito número 1 na posição. Lionel Messi faturou o prêmio de craque do ano pela sexta vez com 46 pontos. Desbancou o holandês Virgil van Dijk (38) e o português Cristiano Ronaldo (36).

Mãe do deficiente visual Nickollas , de 11 anos, a brasileira Silvia Grecco recebeu o prêmio entregue ao torcedor do ano. Uma reportagem do jornalista Marco Aurélio Souza do grupo Globo mostrou a dedicação dela para narrar jogos de futebol para o filho. A matéria viralizou e emocionou a plateia em Milão. ;Nikollas, aqui na frente estão muitas pessoas, muitos jogadores, muitos ídolos, estamos aqui representando nosso time, Palmeiras, e todos os torcedores do Brasil e do mundo, todos aqueles que torcem pela pessoa com deficiência. O simples gesto de narrar os jogos para o meu filho pode transformar a vida dessas pessoas;, discursou.

Decisiva no título dos Estados Unidos na Copa do Mundo feminina deste ano, na França, a ativista LGBT Megan Rapinoe, 34 anos, conquistou o prêmio de melhor do mundo com a bola nos pés e força do discurso. Fora dos gramados, foi protagonista de discursos pela igualdade entre homens e mulheres, ressaltou a luta contra o racismo e, claro, manteve o empenho pelos direitos LGBT. Não colocou a mão no peito ou cantou o hino norte-americano no Munial e disse que, em caso de título, não iria à Casa Branca encontrar o presidente Donald Trump.

;Uma das histórias que me inspirou muito esse ano foi a de Raheem Sterling (do Manchester City) e de Kalidou Koulibaly (senegalês do Napoli), que fizeram grandes performances em campo, mas pela maneira como discutiram o racismo;, discursou ao receber o troféu. E encerrou com um convite: ;Temos a oportunidade de usar esse jogo lindo para realmente mudar o mundo para melhor, temos um poder incrível nesta sala;.

;El Loco;

Escolhidos a dedo pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, o Leeds United e o técnico argentino Marcelo ;El Loco; Bielsa faturaram o prêmio Fair Play graças a um gesto surpreendente. O treinador mandou o time deixar que o Aston Villa marcasse o gol de empate em uma partida na qual anteriormente a equipe dele havia aberto o placar enquanto um jogador adversário estava lesionado em campo. Na ocasião, o Leeds precisava ganhar para subir à elite do Campeonato Inglês. Por causa do empate por 1 x 1 no confronto direto, o Villa se credenciou para jogar a Premier League na temporada 2019/20. O Leeds permaneceu na segunda divisão.

Melhor do mundo pela sexta vez, Messi igualou o recorde da rainha Marta e homenageou a família. ;Eu sempre digo que o prêmio individual é secundário, o mais importante é o coletivo. Mas hoje é especial para mim, tive a oportunidade de estar ao lado da minha mulher e de dois dos meus três filhos. Vê-los aqui não tem preço.

O brasileiro Alisson falou sobre a conquista inédita na carreira. ;Ser o melhor goleiro do mundo é incrível. Acredito que tem muito mais por vir ainda;, disse o titular do Liverpool e da Seleção ao SporTV.



;Estamos aqui representando todos aqueles que torcem pela pessoa com deficiência. O futebol pode transformar a vida dessas pessoas com o simples gesto de narrar os jogos para o meu filho;
Silvia Grecco, mãe de Nickollas, eleitos torcedores do ano



;Esse prêmio representa tudo o que eu trabalhei até chegar aqui. Gostaria de agradecer especialmente à
minha esposa, minha filha, meu filho recém-nascido, meus pais, por estar aqui, recebendo esse prêmio das mãos de uma grande brasileira, a Rainha Marta;

Alisson, melhor goleiro



;Se todo mundo se posicionasse contra o racismo, contra a homofobia no futebol... Temos a oportunidade de usar esse jogo lindo para realmente mudar esse mundo para melhor;
Megan Rapinoe, melhor do mundo



;Eu sempre digo que o prêmio individual é secundário, o mais importante é o coletivo. Mas hoje (ontem) é especial para mim, tive a oportunidade de estar ao lado da minha mulher e de dois dos meus três filhos. O Thiago já veio aqui, mas era muito pequeno, hoje, vê-los ali não tem preço. São dois apaixonados por futebol e estão adorando tantos jogadores aqui;

Lionel Messi, seis vezes melhor do mundo



;Há 10, 20 anos, eu não poderia imaginar estar aqui. (O Liverpool) é um time incrível, meu objetivo foi conquistado, mas tenho que agradecer ao meu time. Como técnico, você só pode ser tão bom quanto o seu time;

Jürgen Klopp, melhor treinador do mundo


Vencedores

Masculino

; Melhor jogador
Lionel Messi (Barcelona ; Argentina)

; Melhor goleiro
Alisson (Liverpool ; Brasil)

; Melhor treinador
Jurgen Klopp (Liverpool ; Alemanha)

; Puskás
Dániel Zsóri (Debrecen ; Hungria)

Feminino

; Melhor jogadora

Megan Rapinoe (Reign ; EUA)

; Melhor goleira
Sari van Veenendaal (Arsenal/Atlético de Madrid ; Holanda)

; Melhor treinador
Jill Ellis (Estados Unidos)

Torcedores do ano
Silvia Grecco e Nickollas (Brasil)

Fair Play
Marcelo Bielsa (Leeds-Argentina)

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