Dentro do amor e da infinita beleza

Dentro do amor e da infinita beleza

Chega às livrarias nova edição de A história de amor de Fernando e Isaura, primeira empreitada de Ariano Suassuna na prosa de ficção que culminou em sua obra-prima Romance d'A Pedra do Reino

» André di Bernardi *
postado em 05/10/2019 00:00


A editora Nova Fronteira acaba de lançar A história do amor de Fernando e Isaura, primeira empreitada do poeta, dramaturgo, artista plástico e professor paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), uma das maiores referências nacionais na área da cultura, no campo da prosa de ficção. Na verdade, o livro está de volta às livrarias. Escrito em 1956 e lançado pela primeira vez somente em 1994, a obra foi produzida como espécie de exercício para a posterior criação do Romance d;a Pedra do Reino, uma das obras-primas de Ariano. Publicado em 1971, o livro iria consagrá-lo como um de nossos maiores escritores.

A história do amor de Fernando e Isaura não fica atrás e não perde o brilhantismo e sua importância no cenário da boa literatura brasileira. Como ressalta o crítico André Seffrin na orelha da edição, o livro bebe de fontes semelhantes às das primeiras peças teatrais de Suassuna e se constitui como ;mítica fábula amorosa de ardente e infinita beleza;. A obra tem como inspiração a clássica lenda de Tristão e Isolda. Suassuna conta história de um amor proibido, com fim trágico, ambientado em Alagoas na primeira metade do século 20. Ali, ele coloca todas a referências do que chamava de romanceiro popular nordestino. Em texto inédito de apresentação, o poeta, ensaísta e professor Carlos Newton Júnior analisa o romance, comparando-o com a trama de origem celta e com o restante da obra de Ariano.

A publicação é ilustrada pelo artista plástico Manuel Dantas Suassuna. Suas imagens, criadas a partir de um diálogo com desenhos do próprio Ariano, fazem referência aos locais em que a narrativa transcorre. A nova edição traz, ainda, cronologia detalhada da vida do autor.

O corte preciso, o talhe precioso. O fluxo do pensamento de Ariano Suassuna segue um rumo feito de turbilhão e lucidez. Não existem limites quando corre um rio de águas puras e mais que livres. Tomado pelo universo mítico das melhores fábulas, Ariano tece a sua história como quem borda flores, sóis, num tecido literário rico e profundo; a luz do amor e o trágico num pano feito de puro sonho.

Para tanto, como sempre foi do seu feitio, Ariano bebeu e se fartou da mais profunda e genuína cultura popular brasileira. Dali ele toma impulso e alça voo. Ariano adorna os inevitáveis conflitos causados pela paixão com um tipo de literatura linear, no sentido que este termo empresta àquilo que é superior e está bem acima do ordinário que nos cerca, em todos os sentidos, em todas as áreas, em todas as instâncias.

Contador de histórias

Ariano é, antes de tudo, um grande contador de histórias. Ele nos apresenta personagens ricos, misteriosos, repletos de nuances complexas. Somos bons e maus, feios e bonitos, enormes e pequeninos. Fernando, com personalidade ;ardente e escura;, Isaura, com seu ;temperamento e sua beleza situados acima das dimensões humanas;. Ariano fala belamente sobre a força que tem o destino, que ao mesmo tempo une e desata, que apazigua as tempestades e acorda outros tantos perigos.

A dimensão do alcance da escrita de Ariano atinge lonjuras, amplia em nós um sentido profundo de brasilidade, no que isso guarda e aponta para a grandeza de um povo, de uma terra, de um sertão profundamente rico, solidário e lírico. Ariano ilumina e amplia os contrastes e os paradoxos de um Brasil que, talvez, num futuro distante, ainda vai dar as caras. Escreve com a sagacidade de um cangaceiro, valendo-se de alegrias. Como disse o escritor Valter Hugo Mãe, ;É urgente vivermos encantados;.

Existem forças capazes de transpor os maiores obstáculos. A literatura de Ariano é uma dessas luzes. E escolhe pela inteligência e escreve com o coração. Uma literatura que tem um porque, que tem um para quem. Tudo em liames. Todas as coisas boas. Tudo isso, quase tão profundo como o mistério; ou talvez mais que o mágico.

Mais que um professor, Ariano é uma espécie de feiticeiro, uma espécie de pajé de todas as tribos. Certamente sabia pelo canto o nome do todos os pássaros. Essencialmente, simplesmente humanamente simples. Trata-se de uma literatura feita de dádivas. Ariano é dono de uma natureza, de um caráter gentil e amoroso, e isso transparece em cada passagem, em cada verso, em cada cena de sua grande obra. E não poderia ser diferente em A história de amor de Fernando e Isaura. O Brasil é cheio de coisas sagradas. Ariano nos faz um convite para enxergarmos o mundo por meio de uma espécie de filtro feito de delicadeza e sonho.

Ariano é uma espécie de pedra preciosa, é um presente nosso para o mundo. Mais que isso, é um segredo muito nosso, com sua poesia, sua dicção única e sua imensa compaixão. O escritor mostra que ;as mil humanidades; que existem dentro de nós ganham relevância quando são capitaneadas pelo amor, uma espécie de encantamento que sempre reorganiza e desconcerta.

*André di Bernardi é jornalista e poeta



A HISTÓRIA DE AMOR DE FERNANDO E ISAURA
De Ariano Suassuna
Nova Fronteira
256 páginas
R$ 49,90

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