Uma balada mineira

Uma balada mineira

Com galinhada preparada no palco e música de Zé Mulato & Cassiano, Enluarada traz saga inspirada na cultura popular

» Nahima Maciel
postado em 05/10/2019 00:00
 (foto: Diego Bresani/Divulgação)
(foto: Diego Bresani/Divulgação)


Caísa Tibúrcio não é mineira. Nasceu em Brasília, há 39 anos, mas sempre se encantou com a forma de os mineiros contarem histórias. É um jeito derramado que acaba por se tornar engraçado. Durante uma disciplina no mestrado em artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB), ela se deu conta de uma semelhança peculiar: o quanto a narrativa mineira popular encontra ecos na Ilíada e na Odisseia, os versos épicos atribuídos a Homero e responsáveis por narrar a saga do herói Odisseu.

Como precisava produzir um exercício para a disciplina de mestrado, Caísa atacou de mineirices e criou o espetáculo Enluarada ; Uma epopeia sertaneja. ;Sempre fui muito povoada por todas essas histórias e esse desejo de trabalhar com cultura mineira estava guardado dentro de mim. Pensei em uma tragédia mineira brasileira, porque sempre achei que os relatos mineiros eram sagas, a forma exagerada, e de tão carregada, começa a ser engraçada. É uma coisa muito brasileira esse melodrama que chega ao ponto de ser engraçado;, repara.

Quanto mais se aprofundou no estudo dos clássicos gregos, cânone da literatura ocidental, mais Caísa encontrou semelhanças. Em busca de elementos comuns entre a tragédia e o estilo mineiro, ela encontrou o que chama de ;coisas incríveis;, como a musicalidade, a descrição das cenas, a forma como se fala do amor. No palco, enquanto prepara uma galinhada para ser dividida com a plateia, Caísa narra uma história de amor na qual a personagem Maroca se apaixona por Heitor, vaqueiro e violeiro pobre que precisa fazer alianças, e decide segui-lo até Brasília. No entanto, o caminho é pontuado por pequenas tragédias.



Desejos

Aos poucos, a narradora se confunde com a personagem e conduz o público por um drama bem brasileiro. ;É uma história ao mesmo tempo regional e universal, fala do amor, da morte, dos nossos desejos mais íntimos, da relação entre as pessoas;, avisa a atriz, há muitos anos envolvida com teatro para bebês. ;Isso me trouxe mais para esse contato olho no olho com o público. E o espetáculo tem muito isso, estamos juntos contando uma história.; A interação com o público, convidado a participar e a opinar, é fundamental em Enluarada. Quando apresenta a peça em escolas, Caísa fica impressionada com o retorno: há tantos comentários que o espetáculo passa da uma hora programada pela atriz.

A música também é componente essencial de Enluarada, que tem direção de Denis Camargo. Caísa aprendeu com o marido, o violonista Fernando César, diretor musical do espetáculo, a tocar sanfona. Na trilha, há composições assinadas por ela em parceria com a irmã, Milena Tibúrcio, e o pai, Caio. Como colocava em destaque o universo caipira, a atriz convidou a dupla Zé Mulato & Cassiano para compor uma música para o espetáculo, mas a agenda lotada dos irmãos emperrou a composição.

Verdade

Eles toparam então gravar uma música de Milena e Caio. Vou deixar a minha terra é inédita e fala da ligação com as origens, do migrante que leva saudade e vai desbravar o sertão. ;Zé Mulato & Cassiano era tudo que a gente queria, são os maiores representantes da música caipira, a verdade da música caipira hoje está neles;, garante Fernando César.

A galinhada também era um elemento cênico indispensável na visão de Caísa. Para ela, era impossível falar de Minas e não falar de comida. ;Ficaria incompleta. Na minha família a gente come o almoço falando da janta, é o tempo todo programando a comida. E gosto muito de cozinhar, então sempre quis uma experiência teatral trazendo a comida para a cena;, conta.

A atriz pesquisou tempo de preparo, ingredientes, que não podiam ser sazonais e precisavam ser sempre os mesmos para não extrapolar a duração da peça, e os objetos. A pesquisa de objetos contou com a ajuda de Sandra Vargas, do grupo Sobrevento. ;Ela mapeou e desenhou toda a relação com os objetos, a forma de contar a história é se relacionando com os objetos;, diz. Nas mãos de Caísa, enquanto vive e narra Maroca, uma cebola ou uma faca podem ter significados muito especiais.


"Eu gosto muito de cozinhar, então, sempre quis uma
experiência teatral trazendo a comida para a cena"
Caísa Tibúrcio, atriz


Enluarada ; Uma Epopeia Sertaneja
Direção: Denis Camargo. Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h, na Sala Multiuso do Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). Entrada franca. Classificação indicativa: 12 anos

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação