A batalha do supermercado

A batalha do supermercado

Alexandre de Paula
postado em 08/10/2019 00:00
Neste fim de semana, decidi voltar a cozinhar. O impacto dos aplicativos de delivery na fatura do cartão de crédito é um problema grave da modernidade e resolvi enfrentá-lo do modo mais direto possível: apaguei os apps do celular, fiz uma lista e segui, confiante, ao supermercado. Tinha certeza, quando tomei a decisão, de que nada poderia dar errado e de que, no início desta nova semana, seria mais um integrante do bonde das marmitas aqui do trabalho.

A gente, às vezes, se engana. Não sou neófito em supermercados, mas minha falta de experiência recente me impediu de me preocupar com questões básicas, como escolher uma data aceitável para visitar estabelecimentos do tipo. O primeiro fim de semana depois do quinto dia útil, constatei, não é o momento mais agradável para executar uma tarefa assim.

Escolhi um mercado pequeno e vi que corredores apertados promovem mudanças mais drásticas e rápidas na personalidade do ser humano do que grandes traumas. Antes de entrar, um casal simpático trocava risadas na calçada. Acho que li até Namastê na camisa do rapaz. Mas bastou assumir a direção de um daqueles carrinhos para o moço se transformar. Dava para ver o ódio nos olhos dele ao tentar ultrapassar uma senhora na seção das verduras. Não via nada assim desde as eleições do ano passado.

Quase sugeri ao rapaz que levasse um maracujá, mas preferi me calar e focar na tentativa de não participar do jogo de tromba-tromba forçado. Foi inútil, é claro. E pedi perdão umas 15 vezes por ter encostado no carrinho de alguém ou por ter fechado o caminho. Sou um péssimo motorista de supermercado, entendi lá pelos primeiros 10 minutos como condutor do veículo não motorizado.

Nem vou falar da confusão diante das múltiplas opções de creme de leite e das diferentes variedades de alface ; optei por uma versão orgânica, hidropônica e sabe-se lá qual outro adjetivo proparoxítono mais. Escapei, por sorte ou não, daquelas promoções que fazem as pessoas se estapear por uma caixinha de leite condensado.

Ao fim da jornada, cheguei exausto ao caixa. ;Moço, só faltou pagar;, disse o atendente ao me ver empacotando as sacolas com cara de quem já se preparava para ir embora. E eu quase fui mesmo, como um soldado que, depois da guerra, nem sabe mais qual o próprio nome ou quem é. Pedi desculpas de novo. Paguei e fui para casa.

A batalha final foi na cozinha e envolveu frango, pimenta e muito curry. Ontem, meus colegas olharam a comida na marmita com certa desconfiança. Era só estrogonofe frustrado, mas disse a eles com toda gravidade de um chef muito experiente: ;É um molho com inspiração indiana;. Estava até gostoso, mas acho que não convenci. Ninguém quis provar. E comi sozinho, com mais satisfação pela trajetória do que pelo sabor, meu frango indiano.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação