Esse ódio tem de acabar

Esse ódio tem de acabar

Sociedade civil e governo se mobilizam no combate à violência contra a mulher. Em 2019, o Distrito Federal contabiliza 30 feminicídios. Seis novos centros especializados em acolhimento às vítimas de agressores devem ser construídos na capital em 2020

JULIANA ANDRADE MARIANA MACHADO
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press
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(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )

;Eu não consigo dormir, porque não sei se amanhã vou ver a minha filha.; Esse é o desabafo de Samira*, 68 anos, mãe de uma vítima de violência doméstica há 13 anos. ;Ela tem 32 anos, mas, se você olhar para ela, jura que tem mais de 50. O marido dela é ruim. Ele é péssimo. Bate nela quase todo dia, puxa pelos cabelos, tudo na frente das crianças;, lamenta a mãe. A filha tem seis filhos, e o agressor colocou uma faca no pescoço dela. A família mora em um barraco, no Assentamento 26 de Setembro. ;Se eu tivesse condições, tinha trazido a minha filha de volta para casa, mas não tem como. Eu não sei mais o que fazer.;

Assim como a filha de Samira, outras 13,3 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica entre janeiro e outubro ; seis novos centros serão construídos no próximo ano no DF. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do DF e mostram aumento de 3,85% em relação ao mesmo período de 2018. No total, o DF contabiliza 30 feminicídios neste ano, o maior número desde a criação da lei que tipifica o delito, em 2015.

Ontem, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, teve início a campanha anual de 16 dias de ativismo. Criada em 1991, por ativistas do Instituto de Liderança Global das Mulheres, a ação tem o objetivo de mobilizar a sociedade e organizações para prevenir e eliminar esses crimes. A campanha vai até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

No gramado da Esplanada dos Ministérios, um ato simbólico teve 1.206 cruzes fincadas em alusão ao número de feminicídios no Brasil em 2018. Além disso, sobre uma cruz de tecido negro, estavam pares de sapato, representando as mulheres assassinadas. A manifestação foi organizada pela deputada federal Flávia Arruda (PL-DF). ;Nós precisamos tomar medidas enérgicas e urgentes para combater a violência contra a mulher;, declarou a parlamentar. ;A cultura machista está arraigada na sociedade. É um problema cultural que a gente precisa trabalhar no dia a dia.;

Joana*, 39 anos, participou do ato. Por dois anos, ela sofreu agressões do companheiro até ser esfaqueada duas vezes no abdômen. Depois do ataque, ela fugiu para o DF. ;Eu não posso mais voltar para o interior, porque ele me mata. Ele disse que, se eu sobrevivesse, ele acabaria o serviço que tinha começado;, emociona-se. Além das cicatrizes que carrega na pele, ficou com sequelas que a impedem de trabalhar. ;Eu não consigo carregar coisas pesadas; então, não posso mais fazer as faxinas que eram o meu sustento. Nos dias mais frios, eu sinto muita dor no lugar em que ele me acertou.;

Desamparo

Na Câmara Legislativa, também houve ações. Além da CPI do Feminicídio, mulheres se reuniram, pela manhã, com o deputado distrital Leandro Grass (Rede) em uma roda de conversa. No bate-papo, vítimas e familiares relataram desafios e avanços na rede de apoio. A empresária Mônica Macedo, 49, destacou o desamparo. A filha dela, a dentista Nathália Verônica de Macedo, 26, morreu em 2017. O marido, acusado de ser o autor do crime, fugiu com o filho do casal, que, à época, tinha menos de 1 ano. Depois da prisão dele, Mônica brigou na Justiça pela guarda do garoto. ;É uma criança cheia de traumas, que não tem apoio psicológico;, diz.

Rosa Melo, 40, também lamenta a falta de apoio. Vítima de violência durante 18 anos, ela só se livrou da situação com a ajuda de uma ONG. A mulher, que sofreu violência física, psicológica e uma tentativa de homicídio, vende suspiros para sustentar os filhos. ;Não me sinto 100% segura. Ele (o ex-companheiro) usa tornozeleira e está proibido de chegar perto da minha casa e do meu curso, mas eu não tenho proteção. Teve mulher que morreu com medida protetiva;, alerta.

Para Leandro Grass, o tema vai além da segurança e deve ser discutido em outras áreas, como a educação e a saúde. ;Não é um assunto simples e não há soluções focais. É preciso entender o problema e envolver todos os poderes e a sociedade;, analisou.

O Distrito Federal conta com uma Casa Abrigo, onde mulheres sob ameaça podem ser acolhidas com os filhos. Também há três Centros Especializados de Atendimento à Mulher (Ceam), com acolhimento e acompanhamento social, psicológico, pedagógico e de orientação jurídica. Segundo a secretária da Mulher, Ericka Filippelli, o Congresso Nacional liberou cerca de R$ 5 milhões para a construção de três centros.

Terrenos são procurados em São Sebastião, Sobradinho, Sol Nascente, Itapoã, Recanto das Emas e Riacho Fundo 2. A previsão é de que as construções comecem em 2020. ;Houve aumento nas denúncias, o que quer dizer que as mulheres têm tido coragem de buscar direitos e a proteção do Estado. Mas, ainda assim, mais de 70% delas (vítimas de feminicídio) não buscaram nossos equipamentos, centros especializados, ajuda;, destaca Ericka. Além disso, a Casa da Mulher Brasileira, fechada desde abril de 2018, passará por reformas.

*Nome alterado para preservar as vítimas

"A cultura machista está arraigada na sociedade. É um problema cultural que a gente precisa trabalhar no dia a dia;
Flávia Arruda, deputada federal

Três perguntas para Mariana Távora, coordenadora do Núcleo de Gênero do MPDFT

Temos o que comemorar no Dia Internacional para Eliminação da Violência contra a Mulher?
Devemos comemorar o fato de ter uma lei do feminicídio. É uma iniciativa que, se for olhar para outros países, não tem uma lei como a nossa, que qualifica a morte quando ocorre em razão da condição de ser mulher. Isso é algo relevante. A gente tem a Lei Maria da Penha, com uma lógica não só repressiva e que traz um paradigma novo de justiça.

Quais os primeiros sinais da violência?
É muito importante que a mulher reconheça que sofre violência. Comece a ver o exercício de controle intenso na vida, proibindo atividades que não têm de ter proibição, como ter amigas, frequentar faculdade, ir e vir livremente. A argamassa das violências físicas e sexuais é a violência psicológica, a hierarquia. Esses sinais de controle, ciúme excessivo, horários, isso pode ser disparador para violências mais letais. A violência psicológica é tão séria como a física e pro

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