Entrevista / Cristovam Buarque, ex-senador

Entrevista / Cristovam Buarque, ex-senador

"Estamos no tempo do desencanto"

CIBELE MOREIRA
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

O ex-senador Cristovam Buarque (PPS-DF) participou ontem do programa CB.Poder, parceria do Correio com a TV Brasília. Durante a entrevista, ele pontuou alguns aspectos sobre a política atual e os erros dos governos progressistas que contribuíram para a guinada conservadora nas eleições do ano passado.

O assunto também é tema do seu mais novo livro, Por que falhamos ; O Brasil de 1992 a 2018. A obra publicada pela Tema Editorial ficará disponível gratuitamente em versão e-book, a partir de 5 de dezembro, no site www.temaeditorial.com.br, além das lojas virtuais e nas redes sociais de Cristovam Buarque.

Utilizando a frase do seu novo livro, ;Por que falhamos?;
Falhamos por diversas razões. Coloco 24 ideias. Por exemplo, nós não tentamos dar coesão a nós próprios e aos processos. Passamos todo o tempo brigando. PT e PSDB, sobretudo. Tanto que saímos do governo, e as pessoas não sabem qual é a bandeira que esse pessoal deixou. Esse pessoal no qual eu me incluo. Qual é a bandeira que a gente deixou? Eu creio que nós não tivemos um sonho utópico. Nós ficamos presos ao imediatismo e, aí, caímos no eleitoralismo. Eu acho que foi um dos erros. Em vez de termos uma visão a longo prazo, ficamos só com próxima eleição. É obvio que cair na corrupção foi um dos maiores erros.

E esses erros continuam sendo cometidos? Existe alguma luz no fim do túnel?
A grande tragédia do Brasil, hoje, é que temos um governo que não traz nada para modernizar o Brasil no sentido de ser uma civilização melhor. Pode até ser que dê certo na medida econômica para retomar o crescimento. Mas é o crescimento dos mesmos produtos, mesmo erro do socialismo. O socialismo cometeu um grande erro. Querer ser o capitalismo para todos em vez de ser algo novo.

No livro, o senhor faz críticas às regalias dos benefícios dos servidores públicos. Como o senhor acha que deveria ser?
Nós ficamos como os governos dos privilégios, no setor público. Nós não acabamos com nenhuma mordomia. Nós criamos comissões e mais comissões. Além da corrupção, nós nos subordinamos aos privilégios. Ficamos prisioneiros das corporações, e não do povo. Nós discutimos privatizar ou estatizar. E o que eu quero é um Estado que possa servir ao público.

O senhor queria ter ficado mais tempo como ministro da Educação?
Eu queria ter sido o ministro da Educação de base. Eu não queria juntar educação de base e universidade. Ou eu abdicava da universidade, ou eu não ficava muito tempo. O Lula não deixaria. O Lula teve juízo eleitoral quando me disse por telefone: ;Eu preciso de um ministro que se dedique mais ao ensino superior;. E eu reconheço. A minha mania era erradicar o analfabetismo de adultos, que, para mim, não é uma questão educacional, é uma questão moral. O analfabetismo é uma tortura, não é só falta de conhecimento.

Arrepende-se do seu voto durante o processo de impeachment da Dilma?
Eu acho que, no ponto de vista da inteligência, foi um erro completo. No ponto de vista da coerência, foi um acerto. Perdi amigos, perdi eleitores. Como eu votaria contra o impeachment se eu passei dois anos dizendo que ela cometia crime de responsabilidade? Se eu fiz uma audiência pública sobre as pedaladas, se eu publiquei um folhetim que ela estava cometendo crime. Eu fui prisioneiro da coerência.

Qual é a posição do senhor sobre a prisão em segunda instância?
Eu sou favorável ir até a última instância. Mas a última instância para julgar se a pessoa é criminosa não é o Supremo (Tribunal Federal). O Supremo é para julgar se foi dentro da Constituição. A última instância tem de ser na segunda (instância), do ponto de vista do criminoso. Por isso, sou favorável à condenação e à prisão em segunda instância.

Como o senhor vê o projeto das escolas militarizadas aqui no DF?
Primeiro, é preciso ver que nós, professores, perdemos a luta pela disciplina na escola. E não há educação sem respeito ao professor. E, quando eu falo disciplina, não é apenas agressão física. Hoje, tem aluno que fica de costas para o professor. Que não deixa o colega estudar. Para isso, nós precisamos de assessoria externa para recuperar a disciplina dentro das escolas. E creio que a Polícia Militar possa ajudar. Eu não sou favorável a entregar as escolas à PM, tirar o professor da direção e colocar um PM. Mas eu sou favorável à convivência com um especialista em disciplina.

Qual é a maior consequência dessa derrota contra o governo Bolsonaro?
O maior estrago não é do Bolsonaro. Nós somos contra o Bolsonaro, mas não apresentamos uma bandeira contra o Bolsonaro. Esse é o grande problema. Olhar os erros dos outros não ajuda. Nós temos de começar com autocrítica. Precisamos de uma alternativa que seduza a opinião pública. Nós estamos no tempo do desencanto, precisamos entrar no tempo da esperança outra vez.


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