A torcida do urubu

A torcida do urubu

Severino Francisco
postado em 26/11/2019 00:00
Em primeiro lugar, é preciso advertir ao leitor que a narrativa que se segue nada tem de edificante. Algumas vezes, mesmo imbuídos das melhores intenções e elevados valores, derrapamos na mais absurda comédia de erros. Vamos ao caso.

Eu morava em um condomínio horizontal, e meu filho João, à época com 7 anos, tornou-se muito amigo de um garoto da vizinhança. Ocorre que, com justa razão, a mãe do garoto queria romper com a amizade entre os dois, alegando que meu filho recorria, de maneira exagerada, a palavras que, nas histórias em quadrinhos, eram representadas por lagartos, lagartixas, relâmpagos, asteriscos e outros bichos.

Tentei atenuar a minha responsabilidade, alegando a influência da torcida do Flamengo, uma vez que sempre que o time carioca jogava em Brasília, eu sofria uma pressão insuportável para levar a molecada do condomínio até o Estádio Mané Garrincha. E, como se sabe, a linguagem falada nos estádios não é das mais impolutas.

Afinal, consegui convencer a mãe do garoto. Comprometi-me e efetivamente realizei, nos dias seguintes, uma cruzada civilizatória visando promover uma drástica redução de palavrões. O fato é que surtiu efeito e eu já estava feliz e cheio da soberba dos vitoriosos.

Duas semanas depois, promovemos uma festa de aniversário do meu filho. Todos os amigos da escola e da vizinhança foram convidados. É claro que logo se dividiram em dois times e improvisaram uma alegre pelada no fundo do quintal. A maioria deles, cerca de 90%, vestia a camisa do Flamengo.

A certa altura do racha, a bola espirrou na direção da varanda, onde as mães conversavam. Peguei a pelota e, de repente, me deu na veneta fazer uma homenagem ao Corinthians, meu time de coração: ;Olha, é o seguinte: só devolvo a bola se todos cantarem o hino do Timão. Botem a mão no peito. Vamos lá: ;Salve o Corinthians, o campeão dos campeões/Eternamente dentro dos nossos corações...;

É claro que só eu cantei. Mas, antes de terminar a primeira estrofe, um dos moleques flamenguistas respondeu à provocação com o conhecido grito de guerra da nação rubro-negra nos estádios, constituído por alguns dos mais inqualificáveis, impronunciáveis e impublicáveis vocábulos da língua portuguesa e que termina com ;...Quem manda nesta zorra é a torcida do urubu;.

Em um átimo, aqueles 20 moleques se transformaram em uma hora de 20 bocages-mirins histéricos, esgoelando com tamanha força o grito de guerra da torcida do urubu, que tudo em volta tremia. A vontade era também de berrar: ;Calem a boca, seus filhos da mãe!”.

No entanto, todas as respectivas mães estavam ali ao lado, e eu limitei-me a tentar fazê-los calar com um desesperado, patético e inútil gesto de ;psiu;, vendo a minha pretensão a civilizador volatizar-se nos céus de Brasília. Eu só pensava aterrado que a minha vizinha ouvira tudo.

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