A crise do ninho vazio

A crise do ninho vazio

Ricardo Daehn
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
(foto: Vitrine Filmes/Divulgação)



Como naqueles grafismos geométricos de artefato indígena, A febre coloca tudo em um plano ordenado. No cotidiano do trabalho num porto de cargas, o protagonista da etnia Desana, Justino (Regis Myrupu, em boa performance), se vê espremido, e mera peça de um meio mecanizado. Preenche, infimamente, os enquadramentos do filme, como sombra em meio à perfeição dos quadrados formados pelos conteiners de carga, sob a vigilância dele. Até mesmo o trato, justo o segmento dos recursos humanos da empresa em que trabalha endossa o tom monetizado de sua sobrevida que transcorre nos arredores de Manaus.

Mas é ao, descer do ônibus, passada a labuta diária, que ele renova a vida. Desaparece, por exemplo, o incômodo junto ao inconveniente novo colega de trabalho Wanderlei (Lourinelson Wladmir) que, com a sutileza de ex-capataz, não percebe Justino como um ;índio de verdade;. Numa linha dissidente ao das recentes ficções (com temas de indígenas) Los silencios e Antes o tempo não acabava, o longa A febre (de Maya Da-Rin) é gestado na singeleza e num grau de verossimilhança afiado e que não comporta grandes voos. Jantares ao redor da mesa com familiares e pequenos encontros revigoram a felicidade de Justino.

A simplicidade estabelecida pelo longa, feito em coprodução que integrou França, Alemanha e Brasil, se prova com apelo universal, tendo sido premiado pela crítica, no Festival de Locarno (Suíça). Numa das cenas mais impactantes, estabelece-se o grau de humanidade representado pelo cinema de Maya Da-Rin: uma senhora indígena agoniza e se mostra grata pelo auxílio, em meio a calafrios e fragilidade na saúde, junto ao ambiente branco. À beira da cama dela, a enfermeira Vanessa (Rosa Peixoto) traz esperança e mais um dado sobre a vida de Justino: é a filha dele e certamente a maior razão de prosseguir, num cotidiano bem aquietado.

Enquanto limitações ; e uma certa inconformidade com o mundo branco (ele reprova, em muitos instantes, ;a comida de supermercado;) ; desabonam maiores planos para Justino, Vanessa vê a oportunidade ser aberta, com uma vaga em curso da Universidade de Brasília. Optando pela linearidade, a montadora Karen Akerman (de O processo e A sombra do pai) mostra a destreza de respeitar o tempo da formulação do destino do protagonista. Uma direção de arte bem dimensionada projeta o bom trabalho de Ana Paula Cardoso.

;Se for importante, vá, filha;, pontua Justino, ainda abalado pelos efeitos de uma doença com quê misterioso. Com a saudade antecipada, o protagonista estabelece, em cena, um paralelo com um dos sonhos que tem: uma carcaça de animal cujo coração ainda pulsa. Aguçado por valores em que acredita ; numa das melhores passagens, com o neto (e herdeiro) no colo, Justino imprime o dom da palavra e a riqueza da linguagem oral ;, e saudoso do roçado e da aldeia, caberá a ele abraçar uma trajetória coerente.






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