Cinematografia plural

Cinematografia plural

Mostra Território Brasil reúne 18 filmes produzidos em várias regiões: fora do eixo Rio-São Paulo, a produção é viva e pulsante

Nahima Maciel
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Heleno Bernardo/Divulgação)
(foto: Heleno Bernardo/Divulgação)

Quando os cinco curadores do 52; Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começaram a analisar a produção cinematográfica nacional para selecionar os filmes para a mostra competitiva, se deram conta de que o Brasil virou um gigante da produção de filmes. Apesar das dificuldades de financiamento, há muito sendo produzido em todas as regiões. Segundo Marcus Ligocki, um dos curadores do festival, o ano de 2018 fechou com um total de 180 longas. Para contemplar essa produção, a curadoria criou a mostra paralela Território Brasil, reunião de 18 filmes representativos de todas as regiões. ;O Brasil é muito amplo, diverso, diferente e essas vozes começaram a buscar se manifestar;, aponta Ligocki.

O curador lembra que a Lei 12.485, de 2011, criou o fundo setorial do audiovisual e ajudou a descentralizar a produção do Rio de Janeiro e de São Paulo para outros estados. ;Uma cláusula estabeleceu que 30% desse recurso fosse para as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, e isso acabou abrindo espaço para que também fossem contemplados a região Sul e estados com menos holofote na região Sudeste, como Espírito Santo e Minas Gerais;, diz. ;A gente tinha uma visão do Brasil que era uma visão carioca. E o Brasil estava demandando uma visão nacional, que a gente tivesse as vozes dos organizadores, das pessoas que viviam em outros lugares.;

O eco dessas vozes aparece em Território Brasil com longas que se dividem entre ficção e documentário e trazem uma visão múltipla do país. Tiago Tambelli, por exemplo, traz uma história fruto da intersecção entre França e Brasil em Ni;de. O documentário sobre a arqueóloga que transformou a Serra da Capivara, no Piauí, em um parque fundamental para a preservação da pré-história brasileira narra uma jornada iniciada nos anos 1960 e ainda em curso.

Filmado em São Raimundo Nonato (PI) e arredores, em períodos de seca e chuva dos quais Tambelli tentou extrair um viés dramático, Ni;de é uma cinebiografia dividida em dois períodos nos quais a personagem é, primeiro, uma pesquisadora e, depois, uma administradora. ;Nosso esforço de produção sempre correu atrás dessa epopeia da Ni;de. Transformar em filme uma história da 40 anos foi um desfio de produção, queríamos mostrar o tamanho dessa empreitada, desse esforço humano. O filme tenta passar toda essa energia que a Ni;de coloca sobre a importância da preservação do parque, da flora, da fauna e da pré-história brasileira;, avisa o diretor.

Também com a intenção de registrar a história de uma personalidade, mas sem querer fazer disso uma cinebiografia tradicional, o baiano Henrique Dantas trouxe para a mostra Dorivando Saravá, o preto que virou mar, documentário que trata de um lado pouco explorado de Dorival Caymmi. ;Superexperimental;, na concepção de Dantas, Dorivando investiga as raízes e referências africanas na obra do compositor baiano. ;Estou num momento em que me vejo como um cineasta preto, que era uma coisa que eu não me via, e Caymmi é um cara que foi embranquecido pela sociedade. As fotos mais divulgadas que ele tem são fotos ao lado do mainstream branco, no Rio de Janeiro, não se vê fotos dele nos terreiros, nas rodas de capoeira, que é onde ele criou essa Bahia das músicas. Procurei trazer esse processo meu de reconhecimento de um cara cada vez mais preto;, garante. Entre os depoimentos colhidos, estão as vozes de Gilberto Gil, Tom Zé, Jussara Silveira, Tiganá Santana, Arlete Soares e Adriana Calcanhotto, entre outros.


Ainda na seara da música, Jackson ; Na batida do pandeiro traz outro ícone da música para as telas sob os olhares dos diretores Marcus Villar e Cacá Teixeira. Uma cronologia tradicional, com o músico deixando a terra natal, Alagoa Grande, na Paraíba, até a morte no aeroporto de Brasília, em 1982, depois de um show na capital. ;Sou de Campina Grande, Cacá Teixeira também, é perto de Alagoa Grande, e minha trilha de adolescência e infância foi Jackson do Pandeiro. Eu ficava fascinado com a intuição dele;, conta Villar. No documentário, Jackson é reverenciado por alguns dos nomes mais importantes da música brasileira, como Gilberto Gil, Lenine, Hermeto Pascoal e Pedro Luís.

De Brasília, Renato Barbieri participa da Territórios com Servidão, documentário sobre o trabalho escravo no Brasil que traz depoimentos de vítimas e de pessoas e profissionais engajados na luta contra essa prática. Há alguns anos o diretor se debruça sobre o tema. Quando finalizou Pureza, único representante do Distrito Federal na seleção oficial do Festival do Rio, no ano passado, decidiu dar continuidade à investigação sobre a formação da sociedade brasileira. ;A pesquisa do Pureza foi muito aprofundada sobre o trabalho escravo contemporâneo e percebi que daria para desenvolver um documentário com a riqueza de dados que levantei para fazer o filme de ficção. Aí nasceu Servidão;, conta. ;Eu tive contato direto com diversos trabalhadores rurais que foram escravizados. Trabalhei com um universo da escravidão rural, porque existe também o urbano, tão grande quanto o rural.;

Barbieri explica que, historicamente, o Brasil tem trabalho escravo rural desde sempre. No dia 13 de maio de 1888, com a proclamação da Lei Áurea, a maioria das pessoas escravizadas continuaram na mesma condição de exploração de trabalho no dia seguinte. ;Não houve uma ruptura como a gente imaginaria na data histórica. De fato, passou a ser crime, não se poderia mais possuir pessoas. Mas as condições permaneceram as mesmas para muitos desses brasileiros;, lembra.

Barbieri chegou aos entrevistados por meio de organizações como e Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Senait), além de órgãos ligados ao extinto ministério do Trabalho.

Para o diretor, o Brasil tinha uma estrutura de combate à escravidão que foi modelo para o mundo desde 1995, mas que, ultimamente, vem definhando com a redução de recursos. ;As pessoas não têm condições de se deslocar para fazer fiscalização. Mas a legislação brasileira é modelo, reconhecida no mundo inteiro até uns anos atrás;, aponta o diretor, que se espanta com os números descobertos durante a pesquisa. Hoje, segundo a OIT, há 40 milhões de pessoas escravizadas no mundo.



Mostra Território Brasil
Até 1; de dezembro, no Museu Nacional da República

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação