Brega com funk no caldeirão

Brega com funk no caldeirão

Vinícius Veloso*
postado em 26/11/2019 00:00
 (foto: Fernando Hiro/Agência DezCarga)
(foto: Fernando Hiro/Agência DezCarga)


Brega ou brega-funk, como quiserem. A denominação não faz diferença. O importante é ressaltar que o Nordeste chegou e está, mais uma vez, presente entre os ritmos musicais mais escutados do Brasil. Mais do que música, é o som de resistência dos artistas da região. Os sucessos de verão, trilhados pelo axé e pelo frevo, chegam ao ritmo brega também. Toda a animação e alegria brasileira pode ser encontrada nas sonoridades do estilo.

Com ponto de partida no Recife, o brega (como é conhecido na região) sempre foi o ritmo preferido da população da cidade. Mesmo assim, nunca ganhou maiores proporções dentro do cenário musical brasileiro. Eis que três jovens compositores resolveram se aventurar em um estúdio para gravar uma música, que surgiu de uma brincadeira. E deu certo. Loma e as Gêmeas conseguiram produzir o primeiro sucesso nacional do brega com o hit Envolvimento (2018).

O lançamento no canal do produtor Kondzilla, no YouTube, foi como uma abertura de portas para o desenvolvimento do estilo. ;Ficamos muito felizes ao ver várias pessoas descobrindo o ritmo musical do local onde a gente mora. Antigamente ninguém conhecia, só tocava em Recife e o pessoal das outras cidades tinha preconceito. Mas a gente fica muito feliz de mostrar o brega-funk para o Brasil e o exterior;, conta Loma.

O que era somente brega, teve que ser transformado em brega-funk para atender a necessidade do público, o que explica um pouco do preconceito com a música nordestina, citado acima pela artista. ;Em Recife, é só brega. Mas se a gente falar brega, os outros não entendem do que se trata. Para eles entenderem, temos que falar brega-funk.;

Apesar do apelo das artistas, o ritmo que ganhou diversas denominações ; tecno brega, arrocha-brega e eletro brega ; passou por algumas mudanças sonoras que aproximaram o estilo do público. Uma delas foi a inclusão de elementos característicos do funk, que está em alta por conta do 150 BPM. Muitas músicas dos bailes de funk, inclusive, foram transformadas em brega e se tornaram sucesso com as duas versões. (Vale lembrar que, em 2018, o cantor Aldair Playboy se tornou referência do brega com as músicas Amor falso e Novinha pode pá, mas nenhuma das duas contava com sonoridades do funk).

Muitos MCs e artistas embarcaram no sucesso e começam a consolidar a carreira. É o caso de Biel Excamoso e Dadá Boladão. Porém, os artistas do momento são Shevchenko e Elloco. A dupla, que se apresenta junta nos palcos, surpreende pela criatividade empregada nas músicas e lança os sucessos que tocam nas festas como Chapuletei e Gera bactéria; eles estiveram presentes no Festival Favela Sounds, em Brasília, realizado neste mês no Estádio Nacional Mané Garrincha.


Topo das paradas

Após se expandir pelo país, vários artistas fora do cenário musical nordestino começaram a gravar músicas tendo o brega-funk como estilo principal. A funkeira Tati Zaqui, natural de São Paulo, juntou-se ao carioca OIK e ao pernambucano Dadá Boladão para gravar a música Surtada. O sucesso da composição foi tão grande que o single atingiu o 1; lugar entre as músicas mais escutadas no Brasil pelo Spotify. No YouTtube, a música ultrapassa as 75 milhões de visualizações.

;Surtada ajudou a espalhar o brega para o resto do Brasil. Sempre busquei trazer coisas diferentes para as minhas músicas. Procuro deixar algo bem dançante, misturando os estilos. Estávamos pensando em fazer algo no brega funk e quando chegou a música, logo de cara, eu vi um potencial gigantesco de virar um hit. Foi uma surpresa muito boa;, conta Tati Zaqui.

Outra música que tomou conta das festas pelo Brasil é Hit contagiante, do cantor Felipe Original em parceria com o funkeiro Kevin o Chris. O single é o mais escutado no Spotify no gênero brega-funk. O DJ Pedro Sampaio, uma das revelações musicais de 2019, também está se aventurando pelo brega. O último lançamento Sentadão vem repleto de elementos que relacionam a música ao estilo. Outro exemplo é o dançante single Contatinho, de Léo Santana em parceria com a cantora Anitta, no qual existe uma transição musical com o brega ; o cantor costuma, inclusive, dançar o passinho durante os shows.

Coreografia marcante

O Brasil, assim como muitos países da América do Sul, contam com a dança como uma característica marcante ; temos o forró e o funk como exemplo. Uma boa música, animada, com a intenção de divertir e animar as pessoas, costuma estar atrelada a uma dança coreografada. Foi assim com Claudinho e Buchecha ao lançar o hit Conquista (seguravam o nariz com uma mão e balançavam a outra em frente ao corpo) e com o grupo Mamonas Assassinas em Vira vira (pulos e giros no ritmo da música). Atualmente, inclusive, existem grupos especializados em criar coreografias como o Fit Dance e a Companhia Daniel Saboya.

No brega-funk, não é diferente. Os artistas locais costumam dizer, inclusive, que para uma música se tornar sucesso, os dançarinos precisam gravar um vídeo dançando. No Nordeste, os responsáveis por trazer essa dimensão ao estilo musical são Os Magnatas do Passinho, grupo de dançarinos especializados em coreografias nascidas sob a inspiração do funk. Diferentemente do convencional passo marcado, a improvisação é a alma da dança, que conta com o movimento conjunto de braços e pés. E contagia. Nas redes sociais, entre os famosos e o público, a dança acompanhada da música foi essencial para divulgar o ritmo nordestino.

;O que ajuda o ritmo a ser levado a frente é o passinho. As pessoas se desafiam a fazer, gostam de ouvir e dançar as músicas. Acredito que o brega vá se estender por muito tempo nas paradas;, conta Tati Zaqui.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

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