Economia surpreende e cresce acima do previsto

Economia surpreende e cresce acima do previsto

Impulsionado pela expansão do crédito e pela liberação de recursos do FGTS, gasto das famílias cresce 0,8% e é o principal responsável pela alta do PIB no terceiro trimestre. Para especialistas, aumento deve continuar

» ANNA RUSSI » ANDRÉ PHELIPE*
postado em 04/12/2019 00:00
 (foto: André Philipe/Esp. CB/D.A Press)
(foto: André Philipe/Esp. CB/D.A Press)


Totalizando R$ 1,2 trilhão e alta de 0,8% no terceiro trimestre de 2019, o consumo das famílias impulsionou mais uma vez o crescimento econômico do país. Na comparação com o mesmo período de 2018, a expansão foi de 1,9% ; o décimo trimestre seguido de avanço nessa base de comparação. De acordo com o IBGE, a alta é explicada pela ampliação do crédito para pessoas físicas e pela elevação da massa real de salários. Para economistas, o quarto trimestre deverá continuar apresentando melhora. Nos últimos três meses do ano, somente a liberação de recursos do FGTS deve alcançar R$ 40 bilhões, o que ajudará a aquecer o consumo.

A agente comunitária de saúde do Estado de Goiás Aldirene Caetano Araújo, de 46 anos, notou que seu consumo aumentou nas refeições do dia a dia e em brindes de fim de ano. ;Estou consumindo muito mais na parte da alimentação e na hora de comprar coisas pequenas pra presentear as pessoas nas festas de fim de ano;, disse. Ela, porém, reclama dos preços e diz que, por conta da crise econômica, já deixou de consumir produtos ;não urgentes;. ;Já deixei de comprar roupa, sapato e alguns móveis. Antigamente, o que você comprava com R$ 100, hoje é com R$ 200 ou R$ 250;, criticou.

Embora não passe mais por apertos tão graves no orçamento, Aldirene ainda busca consumir moderadamente. ;Estou comprando novamente, adquiri uns itens e quero comprar muito mais, mas devagar;, reforçou. Ela gastou seu 13; para pagar dívidas, de forma a reservar a renda extra que vier no próximo ano para gastos pessoais, como compras e lazer.

O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, frisou que o consumo das famílias tem suas raízes na liberação de recursos antes parados, como o FGTS, e nos juros mais baixos. ;Há também que se considerar certa criação de vagas de trabalho dentro de um novo paradigma tecnológico (emprego informal) que garantiu renda neste momento;, destacou. Embora tenha recuado no trimestre encerrado em outubro, a taxa de desemprego ainda atinge 11,6% da população ativa, equivalente a 12,4 milhões de pessoas, segundo a Pnad Contínua. Já o mercado de trabalho informal alcança 41% dos trabalhadores.

Mesmo sentindo no bolso a alta dos preços, muitos brasileiros percebem que consumiram mais do que em 2018. É o caso da enfermeira Aline Cruz de Paula, que conseguiu lidar melhor com os gastos por conta da entrada do FGTS e do 13; salário. ;Está aumentando sim (o consumo), embora esteja havendo um aumento grande dos preços também, principalmente em produtos específicos como a carne. Mesmo ocorrendo esses reajustes, consigo comprar minhas coisas;, disse.

Flávio Serrano, economista-chefe da Haitong Banco de Investimentos, destacou que o consumo cresce, principalmente, em bens de consumo duráveis, que dependem do crédito. ;Com os juros mais baixos, essas compras ficaram mais acessíveis. No entanto, algumas famílias não têm ainda capacidade para expandir o consumo devido ao desemprego;, disse. Ele também projeta um quarto trimestre melhor, impulsionado pela liberação do FGTS pelo efeito das taxas de juros mais baixas.

Apesar do consumo maior no agregado da economia, Taísa Félix diz que em sua casa, o efeito foi diferente: ela e a família tiveram que diminuir os bens supérfluos para quitar dívidas. ;Tive que reduzir coisas como roupas e calçados, para conseguir fechar as contas;, contou. Com a melhora da economia, Taísa faz planos para adquirir um automóvel novo. ;É vantajoso ter mais um veículo em casa pra minha família;, apontou.

Para Newton Ferreira da Silva Marques, professor da Universidade de Brasília (UnB) e membro do Conselho Regional de Economia, é essencial o governo atacar os juros e controlar a inflação. ;É preciso reduzir o endividamento das famílias e diminuir os juros dos cartões de crédito;, sugeriu.

* Estagiário sob supervisão de Odail Figueiredo

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