Por Zumbi dos Palmares

Por Zumbi dos Palmares

Rodrigo Craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 04/12/2019 00:00
Paraisópolis é um microcosmo de um país racista e preconceituoso chamado Brasil. Uma nação onde se coloca Deus acima de tudo e, ao mesmo tempo, se cultua as armas. Um país onde o diretor de uma instituição pública que deveria proteger os direitos dos negros, assim como ele, sugere que a escravatura foi benéfica e profana a imagem de Zumbi dos Palmares. Vivemos em um Brasil que escancara hipocrisia ao tentar negar sua verve de Estado branco. Varre para debaixo do tapete a podridão que, vez ou outra, não consegue conter e vomita em forma de discurso e de atitudes.

Somos a nação onde o presidente declara abertamente que a cultura precisa atender aos anseios da maioria, não de uma minoria. Um país, em que pese os proclamados valores cristãos do Estado, se articula politicamente para isentar o policial que mata em serviço de responsabilidade. O que aconteceu em Paraisópolis, na madrugada de domingo, foi um exemplo tácito e cruel da exclusão de ilicitude. Os vídeos que se espalharam pelas redes sociais indicam abusos vergonhosos, uma ação truculenta da polícia, que rebaixou à condição de criminosos e vagabundos cidadãos inocentes que apenas se divertiam no baile funk.

Vivemos em um país onde o quarto da doméstica é uma senzala anexada à Casa Grande. Onde pobre é repreendido por usar o elevador social. Onde negro começa em desvantagem na seleção de empregos. E onde também é maioria nas favelas. Somos uma nação longe de ser democrática. Aqui, os direitos são excludentes pela cor da pele ou pelo status social. O Brasil condena muitos de seus filhos ao limbo socioeconômico. Por aqui, falar de cotas sociais é quase uma heresia. Assim como enxergar o outro como igual parece tabu para tantos brasileiros.

O Brasil tem uma dívida histórica e moral com a população afrodescendente. É preciso romper os grilhões da ignorância e do preconceito. É preciso despertar da cegueira que impõe dor e castigo ao próximo, que rouba sonhos. Somos todos iguais. Ignorante e cego de espírito quem pensa o contrário.

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