Evidências "esmagadoras" contra Trump

Evidências "esmagadoras" contra Trump

Relatório do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes acusa o presidente de obstruir investigação e de colocar interesses pessoais e políticos acima da segurança nacional. Dossiê vê razões para impeachment

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 04/12/2019 00:00
 (foto: Brendan Smialowski/AFP)
(foto: Brendan Smialowski/AFP)


O 45; presidente norte-americano, Donald Trump, colocou os interesses políticos e pessoais acima da segurança nacional ao tentar convencer o colega ucraniano, Volodimir Zelenski, a investigar o democrata Joe Biden e o filho Hunter sobre supostos atos de corrupção. A conclusão do relatório do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes também aponta evidências ;esmagadoras; que corroboram um processo de impeachment contra o republicano.

Trump foi avisado pouco antes da divulgação do dossiê de 300 páginas (leia Trechos), mas não recebeu detalhes sobre o conteúdo. Em viagem a Londres, onde participa de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ele se referiu ao documento como ;antipatriótico;. A Casa Branca reagiu, por meio da porta-voz Stephanie Grisham, que desqualificou o documento. ;Esse relatório não mostra nada mais do que as frustrações (dos democratas), lê-se como as divagações de um blogueiro de pouca relevância que tenta demonstrar algo embora esteja claro que não tem.;

;As provas da má conduta do presidente são esmagadoras, assim como as evidências de sua obstrução ao Congresso;, afirma o relatório. ;O presidente condicionou um convite à Casa Branca e uma ajuda militar à Ucrânia ao anúncio de investigações favoráveis para sua campanha. (;) A investigação constata que Trump, pessoalmente e atuando por meio de agentes dentro e fora do governo dos EUA, solicitou a ingerência em um governo estrangeiro, o da Ucrânia, para favorecer sua reeleição;, acrescenta. Ainda segundo o dossiê, Trump se engajou em esforços, durante um mês, para utilizar os poderes de seu gabinete e solicitar ;interferência externa em seu nome nas eleições de 2020;.

Dano

O relatório adverte que ;o dano para o sistema constitucional de separação de poderes será duradouro e potencialmente irrevogável, se a capacidade do presidente de obstruir o Congresso não for controlada;. ;Qualquer futuro presidente se sentirá empoderado a resistir a uma investigação sobre seus próprios erros, suas más práticas ou corrupção, e o resultado será uma nação em risco.; O Comitê Judiciário da Câmara deverá iniciar hoje as audiências sobre a investigação, e a expectativa é de que uma votação sobre o impeachment ocorra até o Natal. O presidente descartou acompanhar as sessões de hoje e qualificou o processo como ;absurdo;. Ainda que o impeachment seja aprovado na Casa, a possibilidade de o Senado decretar o afastamento de Trump, em um julgamento político, é considerada quase irrisória, ante a maioria republicana.


Na opinião de Roland Riopelle, ex-procurador-federal para o Distrito Sul de Nova York, a conclusão mais grave do relatório democrata é a de que o presidente convidou uma outra nação (Ucrânia) para se intrometer nas eleições norte-americanas, ao produzir material factual falso ; no caso, a investigação de Biden e Hunter, jamais iniciada ; com o propósito de manipular a votação. ;Isso foi apenas para o benefício de Trump, não ajudaria os Estados Unidos de forma alguma. É exatamente o tipo de coisa que os redatores de nossa Constituição acreditariam justificar o impeachment e a remoção do cargo. Eles estiveram muito preocupados com a interferência externa e a intromissão nas eleições. É exatamente o que Trump queria que a Ucrânia fizesse.; Mark A. Peterson, professor de políticas públicas e ciência política da Universidade da Califórnia (Ucla), nada viu de surpreendente no relatório em relação ao tinha sido revelado nas audiências e nos depoimentos.

;Risco grave;

Presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, o democrata Adam Schiff saiu em defesa da aceleração do processo de impeachment. ;Acho que há um risco grave para o país em esperar até que tenhamos todos os fatos, quando sabemos o suficiente sobre a má conduta do presidente, para fazermos um julgamento responsável sobre se achamos que isso é compatível com o cargo;, disse. Schiff afirmou que as conclusões do relatório sugerem que Trump se acha acima de uma acusação, de um impeachment e de qualquer prestação de contas. ;É uma coisa muito perigosa para este país ter um presidente que acredite estar acima da lei. (;) Este relatório é a crônica do plano de um presidente dos EUA para coagir um aliado, a Ucrânia, que está em guerra com um adversário, a Rússia, para fazer o trabalho político sujo do presidente.; Por sua vez, Nancy Pelosi, líder dos democratas no Congresso, acusou Trump de ;suborno; ao tentar pressionar Kiev.


Longe da eleição no Reino Unido
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu ontem se manter à margem da campanha eleitoral britânica, durante visita a Londres para uma cúpula da Otan (leia na página 13). No entanto, ele assegurou que vai se encontrar com Boris Johnson. O Partido Conservador, do premiê do Reino Unido, lidera as pesquisas para as eleições legislativas antecipadas de 12 de dezembro e tenta manter distância de um imprevisível Trump e de suas declarações, as quais podem servir de munição para a oposição. ;Vou me manter à margem da eleição;, afirmou Trump, em Londres, ;porque esse é outro país e eu não quero complicar; as coisas.


"Acho que há um risco grave para o país em esperar até que tenhamos todos os fatos, quando sabemos o suficiente sobre a má conduta do presidente, para fazermos um julgamento responsável sobre se achamos que isso é compatível com o cargo;
Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes


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